quarta-feira, 24 de outubro de 2012


O conceito de Demiurgia social nasce aqui. Aqui ele sera desenvolvido no formato de um guia prático virtual da Demiurgia Social.  






Alberto Valle Forjaz









Política e Estética, Caos e Complexidade.









Universidade de Brasília – UNB

Instituto de Ciências Humanas - IH

Departamento de Filosofia – FIL

2008


Universidade de Brasília – UNB

Instituto de Ciências Humanas - IH

Departamento de Filosofia – FIL






Política e Estética, Caos e Complexidade.
Alberto Valle Forjaz




Dissertação de Graduação e Licenciatura em Filosofia               apresentada ao Departamento de Filosofia no Instituto de Ciências Humanas da Universidade de Brasília, para a obtenção do titulo de Graduado e Licenciado em Filosofia.






Orientação: Prof. Dr. Miroslav Milovic






Brasília
2008



RESUMO:


 A dissertação pretende a partir de um dialogo com o livre pensamento de Félix Guattari e seus principais interlocutores; pensar a política em curso, sobre óptica da subjetividade produzida, a subjetividade encarada a partir de sua usinagem, de seu auto-engendramento ou sua produção em série; suas conseqüências e implicações; Ambientais, biológicas, subjetivas, políticas, sociais, geológicas planetárias e até cósmicas.
Paralelo a isso, tentar analisar minimamente como o processo “civilizátório” do colonialismo moderno e o seu fracasso teórico, que chega ao seu auge dominatório, se inserem nesse processo produtivo de subjetividade e na culminante “crise global”.    
Buscando numa explanação mais pormenorizada dos conceitos desenvolvidos na década de noventa por Guattari, o final de sua vida, e nas suas conseqüentes repercussões em outros autores, que já escrevem inseridos no novo milênio, as sinalizações das aberturas para novos campos de possível para a práxis política em geral, e para o ambiente. 
           
PALAVRAS-CHAVE: Félix Guattari, produção, subjetividade, Caos, política, desterritorialização, estética, esquizofrenia, ecosofia, Caosmose, Capitalismo Mundial Integrado, revolução molecular, engendramento.       





























“Não estamos mais lá para existir, mas para realizar nosso dever de consumidor.”


Félix Guattari,( Caosmose: um novo paradigma estético. 1992.
 Do capítulo: Oralidade Maquínica e Ecologia do Virtual. Pág.114)     





































SUMÁRIO:



Prelúdio:
Introdução para uma introdução.
Uma introdução fora do tempo (ou do texto);
o texto e a máquina:........................................................................ 5

INTRODUÇÃO:
Félix Guattari:
esquizo-trans-analista-sofo-filo-prático:.........................................  7

Movimentos Geo-lógicos:
Pensamento e território:.................................................................15

Rizomática:....................................................................................17

Diagnósticos e Prognósticos:
CMI:............................................................................................... 20

Ecosofia e ecologia do virtual:
a “Caosmogênese” das potências.:.............................................. 25

Conclusão:
Práxis ontológicas e outros crimes exemplares:

CMI hoje; info-economia e semio-capital.
Alguns novos conceitos do século XXI.:......................................30

A batalha Temporal e a Demiurgica social.:.................................31



Prelúdio: introdução para uma introdução. Uma introdução fora do tempo (ou do texto); o texto e a máquina.

É com distanciamento de quem opera a partir de um foco de fala não “tradicional” na filosofia: o Brasil. Que essa dissertação tentará se constituir.
Não como um mero comentário a respeito da obra teórica de um autor, uma mera explanação do entendimento do conjunto de conceitos que a compõe. Ela tenta ser antes, máquina, biblio-bio-gráfica, que opera e faz conceitos, não se quer apenas manipular e fazer funcionar conceitos, lhes, dar novos tons e matizes: mas também, criá-los. O objetivo dessa dissertação, não falar de conceito “A” ou “B”, ou de “A” em “B”, ou chegar do ponto “A” ao ponto “B”. Seu objetivo é na realidade “ela” mesma. A dissertação em quanto uma máquina, uma estrutura. É uma tentativa de assim, talvez efetivar o conteúdo filosófico em estudo em sua própria formatação textual. Uma teoria estudada efetivada numa práxis ontológica dissertativa, Assim o texto em sua completude, em seu corpo, já presume a si próprio.  

 Como escrever um texto sobre Kant sem ser um pouco kantiano? Assim como, escrever sobre Félix Guattari sem ser “Diabólico”?

































INTRODUÇÃO:
                



Félix Guattari: esquizo-trans-analista-sofo-filo-prático





























O conjunto formado pelas subjetividades dos seres humanos “no geral”, tem passado por um drástico e intenso processo de desterritorialização, uma desterritorialização integradora. Uma quantidade imensurável de pessoas que tem ou que tiveram suas subjetividades desterradas de seus territórios existenciais originários e arremessadas em um mundo virtualizado onde só existe espaço para a auto-realização no consumo. Além claro daquelas que já nascem inseridas, emergidas neste processo de artificialização ontológica.    Quantidades imensas de energia libidinal humanas são canalizadas, adestradas para estabelecer uma relação afetiva com o consumo. Uma estratégia econômica, já que na agenda dos grandes economistas o crescimento exponencial e de forma irrestrita das formas já existentes de consumo e a constante fabricação de novas outras formas de consumo, está como meta e ideal. 
Este processo que se expandiu dos objetos para as mentes, e agora assume proporções planetárias, tem sua origem na expansão colonizadora “civilizatória” do ocidental sobre o resto do globo, isso quer dizer; Cristianismo, Europa, Modernidade, Ciência, Humanismo, Capitalismo, Colonialismo, Estados Unidos...
            No entanto até mesmo alguns destes totens começam a se desintegrar. Após as revoluções industriais do inicio do século XX e a revolução das telecomunicações culminada na virada do século, o processo biológico ao qual chamamos de vida humana entrou em um outro processo cada vez mais veloz de mudança.  Marcado pela contraditoriedade que apenas um processo esquizofrenizante como o Capitalismo poderia proporcionar. De um lado, cada vez mais a vida é a mesma em todos os lugares. Homogênea e asséptica, a mesma estética mercadológica das hiper-redes de consumo. Do outro cada vez mais se intensificam processos identitários, reificados em estruturas fantasmáticas; xenofobia e nacionalismos, ou identidades infantilizadas agregadas a algum tipo de culto coletivo consumista, identidades estabelecidas a partir de objetos consumidos.

            Os estados modernos em suas antigas estruturas baseadas nas identidades nacionais que tinham seus territórios demarcados em noções bem mais arcaicas, que já foram perdidas, de “comunidade”; começam a roer frente à cultura pop, o domínio subjetivo e material que as corporações detêm já vem corroendo as fronteiras há algum tempo. Esse aumento exponencial de poder cedido as megacorporações começa a esvaziar de poder simbólico os estados e a diminuir o valor da vida.    
.
Fazer a filosofia nos dias de hoje não pode ser apenas um exercício, intelectual, mental da grande razão iluminista. Não podemos nos fazer de cegos perante à contraditoriedade  inerente a realidade que nos cerca. Uma pessoa que se dedique a atividade filosófica não pode se abster a palavra crise, esta, é evidente, tão evidente que está palavra esta estampada nas capas dos principais jornais e é veiculada a todo o momento nos mais diversos meios de comunicação. No entanto os termos e a forma como essa crise (a crise econômica mundial) é divulgada, ainda estão claramente distantes das verdadeiras crises que se processão no nosso abalado e confuso tecido social temporal.

Da perspectiva apresentada pelos meios de comunicação, temos apenas duas crises em andamento, e as duas muito bem setorizadas:
 
Uma é a crise um pouco mais antiga e que acompanha de certa forma o tempo e a ordem das geomudanças: Mudanças lentas e graduais. Mas que podem ocasionar mudanças grandes e repentinas, de proporções planetárias:  A crise climática. O assim chamado “aquecimento global” que já é bem conhecido desde a década de 90, quando esta ainda era conhecida apenas como o bom e velho “efeito estufa”. E temos a novíssima crise das bolsas de valores estadunidenses, denominada jornalisticamente como o caos financeiro, ou crise das bolhas econômicas, ou simplesmente a Crise. No entanto em momento algum as duas crises são relacionadas dentro do horizonte da grande mídia. E outras graves crises em andamento não são nem ao menos mencionadas, pelo menos, não diretamente.
Um sistema econômico e social baseado no consumo na produção e nas expectativas destes, onde a própria expectativa é objetificada e se torna objeto de venda e especulação. A acumulação indefinida de capital carrega em si a falsa promessa de auto-realização e felicidade. Claramente numa cultura que se auto-realiza em um território tão desmaterializado e virtual quanto o do Capital, da sociedade de Mercado. Quem pagará a conta é o planeta, resta-nos saber qual será a sua taxa de juros para com a “humanidade”.

A filosofia sempre teve um papel de diagnóstico, talvez caiba ao filosofo essa figura extemporânea, tentar nos momentos de crise generalizada, pelo menos dimensionar a amplitude, mensurar o tamanho da cratera deixada pelo vácuo dessa passagem cataclísmica da História humanidade.
Assim, cabem as pessoas que ocupam os espaços ainda dedicados ao livre pensamento forjar ao menos as indicações das possibilidades de existência e de resistência que possam surfar no caos cataclismático que estamos à deriva.
Paradoxalmente, o marco para o pensamento filosófico ocidental contemporâneo, que se propõe um território tão arriscado como esse descrito; o da confrontação com o horizonte sombrio que a humanidade prepara para si mesma, estabeleceu-se, fora da filosofia, mais precisamente dentro das praticas de saúde e operacionalidade mental.
Félix Guattari no início seu pequeno livro, as três ecologias diz: “O planeta Terra vive um período de intensas transformações técnicocientifícas, em contrapartida das quais engendram-se fenômenos de desequilíbrios ecológicos que, se não forem remediados, no limite, ameaçam a implantação da vida em superfície.”[1]   
Paralelo a esses desequilíbrios ecológicos ambientais Guattari, identifica outros tipos de desequilíbrios, e os inter-relaciona. No mesmo parágrafo ele segue dizendo: “Paralelamente a tais perturbações, os modos de vida humanos individuais e coletivos evoluem no sentido de uma progressiva deterioração. As redes de parentesco tendem a se reduzir ao mínimo, a vida doméstica vem sendo gangrenada pelo consumo da mídia, a vida conjugal e familiar se encontra freqüentemente “ossificada” por uma espécie de padronização dos comportamentos, as relações de vizinhança estão reduzidas a sua mais pobre expressão...
É a relação da subjetividade com sua exterioridade – seja ela social,
animal, vegetal, cósmico – que se encontra assim comprometida numa
espécie de movimento geral de implosão e infantilização regressiva.”[2]
     Félix Guattari escreveu isso em 1989, quando se começava a falar nos grandes meios, em ecologia ambiental e crises climáticas, no entanto a crise que abala as subjetividades já começava a atingir seu auge. Guattarri, já propunha uma espécie de apropriação filosófica da matéria ecologia e a colocava no horizonte da problemática subjetiva; a ecosofia, que será tratada mais adiante no texto.

São esses tipos de movimento que o pensamento de Félix Guattarri realiza, movimentos de apropriação conceitual, paralela a todo um movimento trans, transdiciplinar, já que o seu pensamento fala para várias áreas especificas ou especifizadas do saber e da cotidianidade. Entrecortando-as e relacionando-as; Além de seu grande talento para produzir diagnósticos sobre seu tempo, qualidade já demonstrada pelas citações anteriores; Que vão despertar o interesse inicial deste ensaio.
No entanto Félix Guattari, realmente, não é propriamente um filósofo. E, apesar de hoje muitos o considerarem, na realidade, nem mesmo ele se considerava um. Não que ele não trabalhasse com filosofia, não a operasse. Afinal, escreveu e produziu vários livros e textos, sozinho ou em conjunto (neste caso, muitas vezes junto a filósofos, sendo o mais famoso e o que proporcionou uma maior produção em conjunto; Gilles Deleuze), com o conteúdo extremamente perpassado pelas perspectivas e operacionalidades filosóficas.
Suas atividades profissionais que se focavam no campo da psicopatologia e da psicoterapia, assim como o seu engajamento político e cultural, o levaram a enfatizar cada vez mais a subjetividade como algo produzido nas instâncias individuais, coletivas e institucionais. Assim é sua introdução no capitulo: “Da produção de subjetividade” [3], onde ele expõe e contextualiza a origem da motivação de toda sua produção intelectual. Uma produção, assim, toda ela sempre perpassada pela práxis.
Na década de 70, Félix Guattarri e principalmente Gilles Deleuze, ganharam muita popularidade com o lançamento do livro escrito em conjunto; “O Anti-Édipo” [4]. A partir daí, sua produção em conjunto se amplia durante a décadas seguintes criando vários pontos de indicernibilidade entre o pensamento desses dois autores. O que diretamente compatível com o conteúdo de seus livros desenvolvidos em conjunto. Assim em certa medida não podemos falar de um pensamento Deleuziano ou Guattariniano, já que inclusive estes, “os seus pensamentos”, se estabeleciam em territórios distantes da autoria e da propriedade. No entanto a partir desses territórios e coodernadas estabelecidos e traçados em comum, os dois, dentro de suas múltiplas alteridades e interesses distintos, desenvolvem outros pensamentos e ocupam outros territórios possíveis, mas carregando sempre com si, resquícios desse “bom encontro”.      
Assim, é no livro, “O Anti-Édipo”, que Deleuze e Guattari, em um movimento teórico anti-pisicanálitico vão contextualizar a subjetividade em sua dimensão de produto, o inconsciente em quanto uma usina.  A noção que vai perpassar toda a programática conceitual desenvolvida na obra de Guattari. Contrária ao inconsciente Freudiano calcado na subjetividade representativa, um teatro simbólico do mundo.
Posteriormente na década de 80, no prefácio para o livro, Mil Platôs[5], uma continuação para o “Anti-Édipo” eles resumem seus objetivos programáticos estabelecidos no “Anti-Édipo” em três principais eixos, no livro eles dizem:

“Os três temas do Anti-Edipo eram os seguintes:
1o) o inconsciente funciona como uma usina e não como um teatro (questão de produção, e não de representação);
2o) o delírio, ou o romance, é histórico-mundial, e não familiar (deliram-se as raças, as tribos, os continentes, as culturas, as posições sociais...);
3o) há exatamente uma história universal, mas é a da contingência (como os fluxos, que são o objeto da História, passam por códigos primitivos, sobrecodificações despóticas, e descodificações capitalistas que tornam possível uma conjunção de fluxos independentes).”[6]

A subjetividade produzida, auto-produzida, consciente da potência do delírio e capaz de descodificar as codificações capitalistas.
É essa abertura subjetiva, produzida no “Anti-Édipo”, que Deleuze e Guattari vão querer fazer funcionar em “Mil Platôs”. São as possibilidades de  territórios vislumbradas no “Anti-Édipo” que vão ser percorridos em “Mil Platôs”. Talvez “Mil Platôs” seja o auge da produção intelectual coletiva desses dois pensadores, talvez “Mil Platôs” seja o auge da produção filosófica Ocidental. Capaz até de desenraizar o Ocidente.
Em “Mil Platôs”, Guattari e Deleuze retomam e amplificam a potência do livro. Do livro em quanto mecanismo, corpo mecânico funcional, uma parte do texto sempre está na perspectiva de engrenagem de outras partes que se engrenam. Mas ele não exige que o leitor conheça todas as partes para que o livro funcione.                
Mil platôs não é um clássico, nem o pretende ser, não há em seu estilo o vulto da eternidade, ele é um múltiplo mapa para a multiplicidade, ele já nasce recortado, desfragmentado. “Mil Platos” é um livro solúvel, “aforismátisavel”.
 Caixas de maquinarias filosóficas prontas para serem apropriadas, é o resgate de uma cultura tuaregue que permite o roubo, que o identifica com a liberdade. É como a ausência de sentido que a palavra “propriedade” assume na cultura indígena. Cultivam, contra a univocidade do “eu”, uma mutante territorialidade ontológica de quem plenamente “ocupa” o espaço que lhe cerca, conhece as “trilhas”, os esconderijos, as tocas, as fontes, o geo-pensamento.
No entanto esse tipo de pensamento exige uma pronta potência desconstrutiva atualizante. A coragem da aventura nômade no pensamento. Mil Platôs é um livro para aventureiros, piratas e vagabundos, bruxos e canibais, é um livro pra quem joga RPG, pra quem surfa, pra quem pratica wushu, pra quem tem corpo em geral, para os cientistas, os verdadeiros cientistas e até mesmo para alguns filósofos.
Essa abertura ontológica que Guattari e Deleuze nos oferecem, é algo que também, claro, se apresentou a eles. É a indicernibilidade entre vida e obra que acompanha os grandes autores. E é nesse “rastro” deixado por “Mil Platôs” que esse texto pretende reconstituir a programática conceitual desenvolvida ao final da obra de Guattari, como uma teoria política da práxis ontológica. Suas conseqüências e sinalização.          











                                                              



















Movimentos Geo-lógicos

























Pensamento e território.

“O sujeito e o objeto oferecem uma má aproximação do pensamento. Pensar não é nem um fio estendido entre um sujeito e um objeto, nem uma revolução de um em torno do outro. Pensar se faz antes na relação entre o território e a terra.”[7]
Pensar é algo que se faz sempre a “partir de...”. Um mesmo pensamento tem variedades quase infinitas de preenchimento desta sentença. São os pontos de partida, as coordenadas, cartografias invisíveis do pensamento. A substancialidade invisível das palavras. Os territórios de um pensamento se estabelecem muitas vezes no campo do não dito no texto, é um fator quase semiótico: As entrelinhas, o inter-texto.
  No entanto, o que é essencial ao pensamento, são os corpos. Não se pensa sem um corpo, mesmo um pensamento que se pretende incorporal puramente intelectual possui seus corpos, seus personagens: de que se alimenta a razão pura kantiana?
O pensamento é capaz de criar seus corpos, seus organismos vivos corpos virtuais, máquinas complexas abstratas que adquirem autonomia, vida própria, paralelo a esses corpos, ou simultâneo, a esses corpos, estão ar coordenadas, as cartografias, o território com todas suas especificidades topográficas, é o que Guattari e Deleuze vão chamar de “Plano de imanência”, em seu livro “O que é a Filosofia?”.
Neste livro eles tentam definir os contornos do que seria a atividade filosófica e a Filosofia, para isso, eles também definem outras atividades distintas e interligadas entre si e a filosofia: a Ciência e a Arte. Sempre paralelo a isso há um trabalho demonstrativo, a operacionalidade nômade do pensamento e o delírio produtivo do inconsciente.
O inconsciente é como a terra, produz fluxos e movimentos. Irrompe em erupções, promove deslocamentos, desterritorializações. Como a terra, ele é uma grande máquina.
“Os conceitos são o arquipélago ou a ossatura, antes uma coluna vertebral que um crânio, enquanto o plano é a respiração que banha essas tribos isoladas. Os conceitos são superfícies ou volumes absolutos, disformes e fragmentários, enquanto o plano é o absoluto ilimitado, informe, nem superfície nem volume, mas sempre fractal. Os conceitos são agenciamentos concretos como configurações de uma máquina, mas o plano é a máquina abstrata cujos agenciamentos são as peças. Os conceitos são acontecimentos, mas o plano é o horizonte dos acontecimentos,” [8].

Os conceitos são como os povos que se proliferam, cruzam-se, aniquilam-se e negociam entre si.
Caravanas conceituais atravessando regiões. Tentando sobreviver às intempéries do clima e do relevo. Buscando não serem atacadas por outros grupos de conceitos que matam, raptam e roubam.
O conceito é criado ao passo que o plano é instaurado,sempre simultâneo ao conceito, para que este, o conceito, possa passar por ele. O “plano de imanência” é sempre uma abertura para o infinito; Guattari e Deleuze dizem: 
“Um conceito é um conjunto de variações inseparáveis, que se produz ou se constrói sobre um plano de imanência, na medida em que este recorta a variabilidade caótica e lhe dá consistência (realidade). Um conceito é, pois, um estado caóide por excelência; remete a um caos tornado consistente, tornado
Pensamento, caosmos mental.”[9]

Para Guattari e Deleuze, a filosofia é isso, a criação de conceitos, a operacionalidade dessas estruturas mutantes, que sempre se conectam, se remetem a outros conceitos; um povo sempre veio de outro povo, um conceito sempre remete a outros conceitos. E claro simultaneamente esse conceito é remetido a um território, assim como um povo sempre ocupa um território ou múltiplos territórios. Mesmo que estejam apenas de passagem.                                           
Paralelo a esse exercício de delineamento de contornos e buscas de processabilidades e funcionamentos, dessas três disciplinas, aparece sempre a imagem do pensamento, o território por excelência dessas disciplinas. O pensamento aparece como o vórtice que atravessa, faz furos, no cosmos, nos revelando vislumbres e experiências do caos que está por trás de todo cosmo, toda cosmologia que se cristaliza tenta encobrir o caos, pavimentá-lo, é a opinião, a Doxa, elevada a uma potência transcendente; A Filosofia, a Arte e a Ciência seriam nossas britadeiras.          

#

Rizomática:

“Um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo. A árvore é filiação, mas o rizoma é aliança, unicamente aliança. A árvore impõe o verbo "ser", mas o rizoma tem como tecido a conjunção "e... e... e..." Há nesta conjunção força suficiente para sacudir e desenraizar o verbo ser.”[10]

Retirar o verbo ser de sua raiz metafísica moderna, a da identidade, da unidade e do Universal; dentro do pensamento filosófico significa uma abertura de possibilidades infinitas liberadas para o pensamento no século XXI: a potência do pensamento do devir Heráclitiana retomada transmutada, trans-desterritorializada infectada de Horfismos e Hermetismos, prenha de intensidades tropicais: O filosofo que desembarca no inferno da selva, que é acolhido por indígenas e depois devorado por eles. Las bruhas del pensamiento. O Xamã que vira uma onça. Ou mesmo o resgate de um devir oriental talvez, o Tao: A Ásia ainda surpreenderá o mundo novamente! 
Ou seja, a atividade filosófica passa a não pertencer apenas ao pensamento branco ocidental, a razão lógica analítica perde sua pretensão de univocidade, sem essa pretensão; O que restará a esta?
Aquela velha questão está resolvida: podemos falar de filosofias não sistemáticas, fora da cultura ocidental do “papel”, do autor e do texto; o best seller filosófico. Podemos falar da filosofia de um povo? Podemos falar de uma filosofia dos URU-PA-IN e dos URU-EU-WAU WAU, ou dos KREN-AKARORE, dos TAPIRAPÉ, MACUXI e KARAJÁ?[11]
A “impossibilidade” seria como se não pudéssemos discernir entre a matéria filosofia e os seus fluxos históricos, os quais são sempre decodificados pelo poder despótico e as conjurações capitalistas, mas a Filosofia sempre terá uma herança grega, por vezes oculta, mas sempre pronta a conectar. Está herança que os povos gregos deixaram para o mundo nada tem a ver com a universalidade Ocidental, branco, européia que foi inventada.         
 O rizoma é um conceito botânico apropriado pela filosofia, uma cópia atualizada, do antigo movimento de trazer a estrutura da “raiz” para dentro do pensamento; raiz pivotante, unívoca ou biunívoca; para utilizar os termos certos.
Os rizomas são os tubérculos, algumas gramíneas, bananeiras... Não há semente, partícula fundante, do pensamento: um cogito, ou um uno. O rizoma se prolifera, uma brotação múltipla não de princípios, mas de coordenadas tempo-espaço no pensamento.                     
A teoria rizomática prolifera-se rizomatizando! Um rizoma não tem começo nem tem fim, qualquer parte sua pode e deve ser conectada a outra. Rizomátizar a Filosofia, não só fazer uma filosofia rizomática, mais libera-lá de seu fluxo histórico dominante onde a trilha de pontos a serem conectados já esta dada pelo fluxo dominante: antiga-medieval-moderna; quantas vozes e tons de pele são calados por essa perspectiva?        

















Diagnósticos e Prognósticos






































CMI

Félix Guattari durante o fim da década de 70 identifica um processo emergente do Capitalismo no mundo, decorrente da abertura dos mercados e das revoluções telemáticas; satélites, internet, celular.... Tal processo, conhecido na década de 80, 90 como: Globalização, realizado pelas forças produtivas industriais, amparados pelas maquinárias estatais e pela ideologia neoliberal. É identificado por Guattari como uma nova fase do processo capitalista industrial identificado por Marx. Algo que não foi previsto.
Para Marx o Capitalismo se expandiria até que em um ponto, naturalmente tenderia ao comunismo; se expandindo a partir de uma espécie de programática. O que, Marx não previu, é que mesmo após o Capitalismo ter se expandido para praticamente toda a superfície do globo transformando suas forças produtivas industriais a ponto de causar um iminente colapso ambiental planetário que em ultima instância pode até inviabilizar a vida humana na terra, ele, o capitalismo, não pararia.
É que o Capitalismo não opera a partir de uma programática e sim a partir de axiomáticas, ou seja, ele não possui um programa definido, sobrevive se adaptando, mutando, um modo de operar caótico, similar ao funcionamento de um vírus, ele se alastra.
Essa última e monstruosa fase do Capitalismo, esse Capitalismo Apocalíptico é denominado por Guatarri, como CMI, o Capitalismo Mundial Integrado. Guattari diz:
“O Capitalismo contemporâneo é mundial e integrado porque potencialmente colonizou o conjunto do planeta, porque atualmente vive em simbiose com países que historicamente pareciam ter escapado dele (os países do bloco soviético e a china) e porque tende a fazer com que nenhuma atividade humana, nenhum setor de produção fique fora do seu controle” [12].
O CMI é Capitalismo Mundial e integrado, justamente porque a sua ocorrência se dá simultânea, em toda a superfície do globo. É um movimento terrestre, ou terráqueo, mundializado, quase comparável a uma força natural devastadora. Ele correspondente a um mesmo tempo, a um só tempo homogêneo e canalizado. E integrado porque junta tudo e a todos sob a égide do Capital e da Capitalização, do consumo e da mercantilização:

“0 capitalismo pós-industrial que, de minha parte, prefiro qualificar como Capitalismo Mundial Integrado (CMI) tende, cada vez mais, a descentrar seus focos de poder das estruturas de produção de bens e de serviços para as estruturas produtoras de signos, de sintaxe e de subjetividade, por intermédio, especialmente, do controle que exerce sobre a mídia, a publicidade, as sondagens etc.”[13]      

Quando Félix Guattari começa a perceber o ápice dessa integração que é a desfocalização da produção industrial material para a produção sofisticada da subjetividade, a produção em série da mente pela mente, algo além de um termo do tipo “indústria cultural” ou cultura de massas.
Ele é levado a escapar da concepção freudiana de estruturação do inconsciente e da subjetividade a partir da representação do teatro, para assumir a usinagem do inconsciente, encarar a subjetividade em quanto algo produzido.
Paradoxalmente o Capitalismo só veio a confirmar a teoria da década 70, de que a subjetividade opera a partir do paradigma de sua produção: sofisticando cada vez mais seus meios de sondagem, de controle e de produção de “tipos sociais”.           
            Toda produção material passa a ser regida por fatores subjetivos e semióticos: os carros não são produzidos mais para nos locomovermos e sim para a satisfação do desejo de algum tipo especifico de faixa, de zona, de banda subjetiva: são os públicos, alvo. As valas que o capitalismo cava para as subjetividades desterradas terem a esperança de algum dia alcançarem algum território existencial autêntico, só que essa falsa realização só se dá na perspectiva do consumo, o consumo que irá nos libertar, ele que ira no reintegrar ao território perdido:
“O ser humano contemporâneo é fundamentalmente desterritorializado. Com isso quero dizer que seus territórios etológicos originários - corpo, clã, aldeia, culto, corporação... - não estão mais dispostos em um ponto preciso da terra, mas se incrustam, no essencial em universos incorporais.” [14]

Esse ser humano produzido em duas décadas e manipulado a todo instante, construído e desconstruido conforme as modas, as “tendências”.   fruto do fim do processo expansionista próprio das fases coloniais e imperialistas. Depois de explorar e conquistar todas as superfícies economicamente produtivas do globo o capitalismo se encontrou em uma espécie de cerco, já que o planeta praticamente acabou. Não há mais corridas exploratórias desenfreadas, busca por jazidas minerais em geral, já se conhece praticamente o planeta inteiro, logo todos os lugares já tem um dono, já estão ocupados.
Isso impele o capital a se recompor internamente o tempo inteiro. Guattari aponta que com o fim da possibilidade de expansão material as possibilidades de expansão:
“Sua expansão, seus meios de crescimento, o CMI deverá doravante encontrá-los trabalhando as mesmas formações de poder, remanejando as relações sociais e desenvolvendo mercados cada vez mais artificiais, não só no campo dos bens, mas também no das informações e dos afetos” [15] .

Essas operacionalidades construtivistas, instauradoras de regimes semióticos homogenizantes são divididas basicamente em quatro instrumentos sob os quais repousam o CMI:

“a) as semióticas econômicas (instrumentos monetários, financeiros,
contábeis, de decisão ... );
b) as semióticas jurídicas (título de propriedade, legislação e
regulamentações diversas ... );
c) as semióticas técnico-científicas (planos, diagramas, programas,
estudos, pesquisas ... );
d) as semióticas de subjetivação, das quais algumas coincidem com as que acabam de ser enumeradas mas conviria acrescentar muitas outras, tais como aquelas relativas à arquitetura, ao urbanismo, aos equipamentos coletivos, etc.”[16]
     
Podemos ressaltar de cada ponto os seguintes aspectos em termos de suas atualizações:

a: A semiotização da economia tem seu marco no fim do lastreamento das moedas pelo ouro: A grande jogada do federal reserve*. O banco central  estadunidense, que é uma instituição “privada”. Responsável pelo gerenciamento da quantidade de dólares no mundo. Lastreou a economia norte-americana em seus próprios títulos de governo, e cada dólar que entra na economia é uma espécie de empréstimo concedido ao governo; ou seja, o dinheiro que começa a gerar mais dinheiro a partir do nada. Após essa virtualização da economia interna investiu-se no aumento do poder da semiótica do “dólar”, como? Emprestando-o, para todos os lugares, abarrotando e dilacerando economias pelo mundo inteiro, com a desculpa de ajudar no desenvolvimento dos povos.
Várias foram os mecanismos de controle e regulamentação semióticos criados pelo sistema financeiro; os “índices” de valorização que fazem ações cair e subir a partir de flutuações de humor das opiniões dos investidores. Fazendo estrategicamente um produto específico subir ou cair: a desvalorização dos alimentos produzidos pelo mundo não desenvolvido frente à tecnologia do primeiro mundo.
Além dos índices de “risco país”, onde o servilismo ao capital financeiro mundializado se torna uma espécie de gincana, de competição, onde cada economia recebe uma nota de acordo com as facilidades que essa oferece para entrada do capital dilacerante, que irá entrar, comprar as maiores indústrias falir as menores, substituir os comércios locais por grandes redes de consumo e privatizar as estruturas básicas que o estado oferece a população: saúde, segurança, educação, comunicação e até mesmo o fornecimento de água e esgoto.                             
           
b) Todas essas manobras econômicas que ocorrem nos estados, necessitam de uma aparência de legitimidade e lisura. Estes processos mafiosos precisam construir alguma legitimidade mínima frente à opinião pública. Uma forma de escamotear os verdadeiros interesses externos que impelem uma economia a se afrouxar.
            Neste ponto, operam a máquinas burocráticas de estado, velhas e arcaicas, totalmente não condizentes com o nível de mobilidades e trocas subjetivas que as sociedades alcançaram. Mas essas máquinas se utilizam da semiótica da legitimidade “democrática”, elas existem por direito.
            Como essa estrutura estatal é uma máquina completamente falida, seus componentes, normalmente as elites locais que só busca seus próprios interesses, são todos facilmente comprados pelo capital estrangeiro: que acaba encontrando a porta das economias abertas com um tapete vermelho estendido. Essa cor não é em vão.
           
            c) Essas são a semióticas de controle social pautadas no poder de verdade que as ciências alcançam nas subjetividades e a farsa de sua pretensa isenção.
            A pesquisa de ponta que ocorre para o desenvolvimento de novas tecnologias hoje é substancialmente bélica. No entanto, esse é um desenvolvimento oculto. Paralelo a esse desenvolvimento outros tipos de tecnologia de submissão e controle são desenvolvidas:
            As tecnologias de entretenimento, de saúde social; física e psíquica. Passam pelo crivo de controle semiótico do capital: O interesse envolvido no financiamento de uma pesquisa, os resultados dessa. E a divulgação ou não, e em que meios, dos resultados obtidos.
            d) Muitas outras. Como Guattari demonstra todas essas semióticas de controle, cruzam-se, se atravessam e se complementam criando essas zonas descentradas de indicernibilidade; somos manipulados: mas por quem e por onde? Como focar um alvo?
           
Assim o Capitalismo Mundial Integrado e seus efeitos nas subjetividades que produzidas e seus mecanismos de implementação e vigência, podem ser resumidos em duas citações de guattari:
“O objeto do CMI é, hoje, num só bloco: produtivo-econômico-subjetivo.” [17] “Assegurando-se do poder sobre o máximo de ritornelos existenciais para controlá-los e neutralizá-los, a subjetividade capitalística se enebria, se anestesia a si mesma, num sentimento coletivo de pseudo-eternidade.” [18].                      
                  

#

Ecosofia e ecologia do virtual: a “Caosmogênese” das potências.  
           
Diante deste contexto mundial de regressão e implosão subjetiva. O qual vimos anteriormente: já se alastrava pelo planeta na década de 80. Guattari elabora sua proposta “ecosofica”.  O conjunto das assim chamadas “três ecologias”, uma ampliação do conceito de “ecologia” e do conceito de meio ambiente.
O marco para a consideração da questão ambiental dentro das perspectivas filosóficas.
A ecosofia propunha a elaboração e o desenvolvimento de três registros diferentes de ecologia, mais ambos interligados entre si: Uma ecologia do meio ambiente, outra das relações sociais e por fim uma ecologia da subjetividade.
Três registros que potencializados estão em direto contato com potências invisíveis as quais possibilitam as transversalidades entre os três registros.
São essas estruturas imateriais que compõe a tessitura do mundo a sua sensibilidade subjetiva, pois há uma sensibilidade subjetiva um sentido realmente material na experiência do pensamento.
Essa dimensão de forças invisíveis materiais e imateriais que concorrem para a formação de nossa subjetividade. Vão ser posteriormente foco de estudo e de criação conceitual para guattari.
Ao decorrer de seu estudo sobre a produção e a subjetividade, subjetividade em sua constante mutabilidade e gênese. Que vai surgir o conceito de “Caosmose”.                    
Esse conceito, como qualquer outro conceito filosófico, surge na filiação e desterritorialização de um conjunto de aglomerados de conceitos, alguns pressupostos e outros não, que instauram as coordenadas imanentes de uma teoria. É contra uma noção de estrutura, de estruturalismo; que se instauram os conceitos de Máquina e produção. Com isso, várias potências invisíveis e caóticas foram liberadas: “tratar-se-ia de reconciliar o caos e a complexidade”[19] como diz o próprio Guattari. Peter Pál Pelbart, autor Húngaro nacionalizado brasileiro, um dos grandes interlocutores que ainda se movimentam na abertura inventada por Félix Guattari. Resume essa abertura ontológica para imanência:  aniquiladora das instituições despóticas da transcendência e do significante, da seguinte maneira:         

“Mas o que importa é o fato de que essa concepção maquínica, nada "naturalista", já que faz do Universo uma grande fábrica, estendendo a produção engendrante para todos os níveis, serviu de base para apreender de um modo novo o domínio não discursivo. O não discursivo, ao deixar de ser uma matéria informe à espera de uma estruturação significante, ganhou uma potência infinita. O resultado foi um mundo material e imaterial sem centro, sem instância determinante, sem transcendências despóticas nem equilíbrios reasseguradores. O diabolismo filosófico.”[20]

É o agenciamento ao invés da meta, é optar por diferir, multiplicar; ao invés de homogeneizar, unificar, uni-lateralizar...
É que não existe mais o SER, como equivalente ontológico universal seres, em constante criação e desagregação: o ser em devir, um riacho sem inicio nem fim, que rói suas duas margens e adquire velocidade no meio. [21]        

            Assim, são essas potências virtuais e imateriais do devir que se quer colocar sobre atenção dos três registros ecológicos postulados pela ecosofia.

            O devir do ambiênte: Não só os biomas e os inter-biomas, cerrado caatinga; mas também os homens desses biomas, o sertanejo em sua potência máxima se torna o próprio sertão. A indicernibilidade entre floresta e índio.
            São os três registros ecológicos atravessando as questões urbanísticas. Uma aproximação entre arquitetura e medicina, uma medicina não só do corpo. Esses profissionais do espaço devem perceber a dimensão produtiva de seu trabalho, não apenas a partir de sua materialidade, da produção do “espaço” em si, mas também dos ritornelos e diagramações de afetividade que seus espaços irão infringir.
            Como sempre, trata-se de uma escolha, uma escolha das intensidades que se quer fazer proliferar. Guattari diz sobre os arquitetos:
“Eles devem assumir uma posição de se engajar (como se dizia no tempo de Jean-Paul Sartre) quanto ao gênero de subjetividade que ajudam a engendrar.”[22]            
            O devir das relações sociais: portanto se dará sempre perante e paralelo ao devir e as potências ambientais: É a rua das “putas” em frente ao CONIC[23], em Brasília. A rua é pública, mas é acima de tudo das “putas” e em certa medida a prostituta também é pública. E em sua potência máxima a rua inteira é uma “puta”, na realidade uma multiplicidade de “putas” e travestis que no caso também são “putas”.  Indissociáveis do próprio ambiente, dos contornos e arestas escuras das sombras dos viadutos. A rua é também o volto na calçada.
            Convém assim, repensar também as nossas cidades na perspectiva da produção que os espaços vão ter na multiplicidade de relações sociais: Uma rua duplicada ao invés de uma praça.
            Mas são muitas outras as intensidades que estão sob a óptica da ecologia das relações sociais a exemplo de, podemos inferir: a relação social que estabelecemos com o consumo, que neste sentido vai para além da relação consumo ambiente, e sim a gama de relações sociais que existem entre o consumo e o “consumidor”; em que medida o entregador é visto como um ser humano? Em que medida o local psicológico do dito “consumidor” também não é dotado de diversas características inumanas.          
            Mas não só as relações sociais envolvidas no consumo, mas também no esporte, no turismo, na arte, na vizinhança.
            Aparece novamente a questão da produção. Quando o Universo inteiro é encarado como uma usina, as coisas não param de se multiplicar, de se alastrar, Bifurcamentos. A produção aqui, não é só a produção de aspectos materiais ou imateriais nesses três domínios, mas também a produção de possibilides outras, de produção: a produção de possíveis.
            A Ecosofia, portanto, pretende a partir de uma “radicalidade demiúrgica”[24] do conceito de produção gerir “caosmicamente” esses três registros sempre no horizonte do enriquecimento e proliferação das possibilidades de existência. O enriquecimento desse fenômeno ao qual chamamos de vida.              

































 Conclusão:

Práxis ontológicas e outros crimes exemplares.







































CMI hoje; info-economia e semio-capital; Alguns novos conceitos do século XXI.

           
            [Bifo]: Franco Berardi, filosofo italiano grande amigo e colaborador de Félix Guattari quando este ainda era corporalmente vivo, é um dos pensadores que mantém um dialogo vivo com a obra de Guattari. E que não podiam deixar de figurar nesta dissertação. Não como um comentador, mas como um intelocutor.
            “Bifo”, em sua pesquisa continuou a acompanhar a desenvolvimento e a mutação dos fatores semióticos que a economia passava a agregar quando Guattari cunhou o termo “CMI”.  E neste sentido ele criou vários novos conceitos, os quais são rastreáveis até os conceitos de guattari,  para entender as mais recentes mudanças que o Capital engendrou.
            A perspectiva desses novos conceitos se estabelece a partir de dois eixos interrelacináveis; o da “virtualização” e o da “crise”:
            A valorização da esfera cognitiva da produção criou uma fragmentação da economia; e em razão disso, uma série de paradoxos:
            “ Na esfera sólida da economia, quando usamos um produto, estamos tornando impossível o uso do material por parte de algum outro.
            Quando usamos um produto do trabalho info-produtivo, quanto mais pessoas usam uma certa informação mais valor essa adquire.”[25]       
           
            Essa geração de renda e principalmente o poder de propriedade sob esses aspectos imateriais informativos. Vão criar uma série de bizarrices; a exemplo disso, temos as empresas de bio-técnica que promovem uma pirateação dos genomas: patenteando o genoma de vegetais e animais.
            Ao passo que a crise cultural e subjetiva dessa nova sociedade ainda vigora e prolifera; a rapidez com que as subjetividades e os corpos são arremessados nesse sistema info-produtivo, não permite com que estes se adaptem criando infelicidade, sofrimento e frustração em série. Bifo fala sobre isso: “A participação no circuito comunicativo planetário produz uma rápida e desesperada expectativa de consumo, que não caminha pari passu com um aumento da renda e da possibilidade de obter efetivamente o que a publicidade promete” [26]
            É como aquele vilarejo africano mostrado na televisão, onde boa parte da população sofria com a AIDS sem ter como comprar remédios, ou mesmo mal se alimentavam e no entanto, muitos possuíam aparelhos de celular, apesar de não haver nem ao menos o sinal de uma operadora naquela região. A TV coincidia um valor de status social para aquele objeto que independia até de sua função.  
           
“Bifo”, já vem sinalizando a crise estrutural de nosso sistema econômico financeiro atual, que agora desponta nos tele-jornais a algum tempo, o que ele coloca nos termos de crise da new economy.  Ele não é muito otimista, para ele a precipitação desse colapso, se dará em guerra e militarização da economia. No entanto a alternativa da “produção” colocada por Guattari, ainda desponta em sua teoria:
“Trata-se de imaginar tudo aquilo que se tornará produtivo durante e depois de se abrir o abismo, porque, se não desaparecer a própria humanidade, a rede sobreviverá” [27].
...
     
#


A batalha Temporal e a Demiúrgica social.


O capitalismo e a alienação do trabalho pelo capital, sempre se tratou de uma questão de tempo, de apropriação, capitalização do tempo humano, mas é quando o capitalismo passa a instaurar um mesmo tempo, homogêneo e simultâneo a todos os domínios da vida. Que a questão do tempo ressurge como nosso último refugio e o nosso principal campo de batalha.
A teoria de Guattari aponta, que estamos sujeitos ao capital e sua ação semiotizante desterritorializadora a todos os momentos, no entanto é dentro do tempo, criando bolsões de fuga no tempo e do tempo, criando seus próprios tempos, mas também manipulando o tempo ambiental coletivo vigente, que conseguiríamos escapar da ação de submetimento a que somos infringidos: performances temporais.
Essas são as aberturas pragmáticas que a teoria guattari nos apontam, muito além dos conceitos complexos e difíceis; existe uma prática ontológica produtiva que nos remete ao infinito e o caos. E nos reconecta com a imanência.   
Assim, é de certa forma, enloquecendo-se que vamos conseguir criar as possibilidades de resistência e de fuga: no encontro com o olhar, de um esquizofrênico, instaura-se sempre, uma outra aura, um outro ar, adentramos em uma atmosfera muito mais densa, onde tudo sempre tem algo a sinalizar, cada gesto é acolhido numa sincronicidade da fala, mesmo que o conteúdo desta seja o delírio; não é só a mente que delira, mas também deliram-se corpos. Deliram-se as economias, as burocracias, as repartições, deliram-se  as gravatas.
É fazendo vir à tona o reconhecimento do servilismo ontológico que grande parcela da população encontra-se inserida que se pode ter alguma chance. E isso só será possível a partir de uma política das conjurações, da espreita, é o Xamanismo político dos engendramentos de situações que instauram um novo tempo: social, coletivo, singular.

Como fazer uma cidade parar?

É necessário para isso, uma espreita demiúrgica, da cidade, de sua psico-geografia, de seu urbanismo afetivo, de seus corpos em sua espacialidade. Encontra neles os pontos de fissura e proliferação. Achar os “locais de poder” de uma cidade mover o seu ponto de aglutinação, para usar uma linguagem feiticeira do nagualismo de Don juan nos livros de Carlos Castañeda.
O 11 de setembro, foi um acontecimento conjurado que instaurou um novo tempo no mundo para isso, eles tiveram que fazer o mundo parar.
A pausa, o repouso, o cessamento de um fluxo, o fim da cegueira da rotina: são os momentos, livres e potentes, a abertura da máquina nômade que para e pode assim finalmente ver a aonde chegamos; que a demiurgica social ira usar.  Não irá acontecer uma mudança coletiva em larga escala das axiomáticas semióticas sem esses momentos “limites” quem devem ser trabalhados no sentido do despertar. Somente eles poderão nos retirar do frenesi do delírio consumista.

  É somente parando que se inicia uma nova caminhada.

E é citando o feiticeiro Don Juan, que acreditamos encontrar a melhor maneira de concluir e de homenagear Félix Guattari. Em determinado ponto do livro “Tales of Power” que estranhamente foi traduzido por: “portas para o infinito” se passa o seguinte diálogo:

“ Eu disse a Don Juan que sua explicação não satisfazia meus sentidos, embora eu estivesse em pleno acordo intelectual com ela.
_ Eis o defeito das palavras_ disse ele, num tom tranqüilizador. _ Sempre nos obrigam a sentir-nos esclarecidos, mas, quando nos viramos para enfrentar o mundo, elas sempre nos falham e terminamos enfrentando o mundo como sempre o fizemos, sem esclarecimento. Por este motivo, o feiticeiro procura agir em vez de falar e para isso ele consegue uma nova descrição do mundo: uma nova descrição em que falar não é assim tão importante, e em que novos atos tem novos reflexos.”[28]   

Talvez essa seja a potência “mágica” dos conceitos de Guattari; eles não nos obrigam a nos sentirmos esclarecidos, mas nos ajudam a enfrentar o Mundo.
  















































Bibliografia:



DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O anti-Édipo. Trad.  Georges Lamazière. São Paulo: Imago, 1976.

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil platôs. Vol. 1. Trad. Aurélio Guerra Neto e Célia Pinto Costa. São Paulo: Editora 34, 2000.   

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil Platôs. Vol. 2. Trad. Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão. Rio de Janeiro: Editora 34, 2002.

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil Platôs. Vol. 3. Trad. Aurélio Guerra Neto, Ana Lúcia de Oliveira, Lúcia Cláudia Leão e Suely Rolnik. Rio de Janeiro: Editora 34, 2001.

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil Platôs. Vol. 4. Trad.  Suely Rolnik. Rio de Janeiro: Editora 34, 2002.

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil Platôs. Vol. 5. Trad.  Peter Pál Pelbart e Janice Caiafa. São Paulo: Editora 34, 2002.

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O que é a filosofia? Trad. Bento Prado
Jr. e Alberto Alonso Muñoz. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.

GUATTARI, F. As três ecologias. Trad. Maria Cristina F. Bittencourt Campinas:
Papirus, 1990.

GUATTARI, F. Revolução Molecular: pulsações políticas do desejo. Trad. Suely Belinha Rolnik. São Paulo: Editora Brasiliense s.a. 1981

GUATTARI, F. Caosmose: Um novo paradigma estético. Trad. Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.

PELBART, P. A Nau do Tempo Rei: sete ensaios sobre o tempo da loucura. Imago, 1993, RJ.

BIFO, Franco Berardi. A fábrica da infelicidade: trabalho cognitivo e crise da new economy. Trad. Orlando dos Reis: Rio de Janeiro DP&A, 2005.

Castañeda, Carlos. Portas para o infinito. Título original: “Tales of Power”. Trad. Luiza Machado da Costa: Rio de Janeiro: Nova Era, 1974




[1] GUATTARI, F. As três ecologias. Trad. Maria Cristina F. Bittencourt Campinas:
Papirus, 1990. pág. 3.


[2] Idem pág. 6.

[3] GUATTARI, F. Caosmose: Um novo paradigma estético. Trad. Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992. Pág. 15
[4] DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O anti-Édipo. Trad.  Georges Lamazière. São Paulo: Imago, 1976.
[5]
[6] DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil platôs. Vol. 1. Trad. Aurélio Guerra Neto e Célia Pinto Costa. São Paulo: Editora 34, 2000.  Pág. 7.
[7] DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O que é a filosofia? Trad. Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992. Pág 113.
[8] DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil platôs. Vol. 1. Trad. Aurélio Guerra Neto e Célia Pinto Costa. São Paulo: Editora 34, 2000.  p. 52.

[9] Idem. Pág. 267.
[10] DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil platôs. Vol. 1. Trad. Aurélio Guerra Neto e Célia Pinto Costa. São Paulo: Editora 34, 2000. Pág 37.  

[11] Apenas alguns dos povos indígenas que habitam o Brasil.
[12] Guattari, Félix. Revolução Molecular, pulsações políticas do desejo. Ed. Brasiliense, São Paulo, 1993. Pág. 211.    
[13] GUATTARI, F. As três ecologias. Trad. Maria Cristina F. Bittencourt Campinas:
Papirus, 1990..  P.16.
[14] GUATTARI, F. Caosmose: Um novo paradigma estético. Trad. Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992. Pág. 169.

[15] GUATTARI, F. Revolução Molecular: pulsações políticas do desejo. Trad. Suely Belinha Rolnik. São Paulo: Editora Brasiliense s.a. 1981 Pág. 214.

[16]  GUATTARI, F. Revolução Molecular: pulsações políticas do desejo. Trad. Suely Belinha Rolnik. São Paulo: Editora Brasiliense s.a. 1981 Pág. 215.

[17] GUATTARI, F. As três ecologias. Trad. Maria Cristina F. Bittencourt Campinas:
Papirus, 1990. Pág.17.
[18] Idem 17. Pág. 18.
[19] GUATTARI, F. Caosmose: Um novo paradigma estético. Trad. Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992. Pág. 102
[20] PELBART, P.  - A Nau do Tempo Rei: sete ensaios sobre o tempo da loucura. Imago, 1993, RJ.  Pág. 121
[21] DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil platôs. Vol. 1. Trad. Aurélio Guerra Neto e Célia Pinto Costa. São Paulo: Editora 34, 2000. Pág. 37.
[22] GUATTARI, F. Caosmose: Um novo paradigma estético. Trad. Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992. Pág. 163.
[23] Conhecido centro comercial em Brasília famoso por ser frequentado por muitas prostitutas durante a noite
[24] PELBART, P.  - A Nau do Tempo Rei: sete ensaios sobre o tempo da loucura. Imago, 1993, RJ.  Pág. 122.
[25] BIFO, Franco Berardi. A fábrica da infelicidade: trabalho cognitivo e crise da new economy. Trad. Orlando dos Reis: Rio de Janeiro DP&A, 2005. Pág.115.



[26] BIFO, Franco Berardi. A fábrica da infelicidade: trabalho cognitivo e crise da new economy. Trad. Orlando dos Reis: Rio de Janeiro DP&A, 2005. Pág.118.
[27] Idem, Pág. 10.
[28] Castañeda, Carlos. Portas para o infinito. Título original: “Tales of Power”. Trad. Luiza Machado da Costa: Rio de Janeiro: Nova Era, 1974. Pág. 29. 



Nenhum comentário:

Postar um comentário