O conceito de Demiurgia social nasce aqui. Aqui ele sera desenvolvido no formato de um guia prático virtual da Demiurgia Social.
Alberto
Valle Forjaz
Política
e Estética, Caos e Complexidade.
Universidade
de Brasília – UNB
Instituto
de Ciências Humanas - IH
Departamento
de Filosofia – FIL
2008
Universidade
de Brasília – UNB
Instituto
de Ciências Humanas - IH
Departamento
de Filosofia – FIL
Política e Estética, Caos e
Complexidade.
Alberto
Valle Forjaz
Dissertação de Graduação
e Licenciatura em Filosofia apresentada ao Departamento de
Filosofia no Instituto de Ciências Humanas da Universidade de Brasília, para a
obtenção do titulo de Graduado e Licenciado em Filosofia.
Orientação:
Prof. Dr. Miroslav Milovic
Brasília
2008
RESUMO:
A dissertação pretende a partir de um dialogo
com o livre pensamento de Félix Guattari e seus principais interlocutores;
pensar a política em curso, sobre óptica da subjetividade produzida, a
subjetividade encarada a partir de sua usinagem,
de seu auto-engendramento ou sua produção em série; suas conseqüências e implicações;
Ambientais, biológicas, subjetivas, políticas, sociais, geológicas planetárias
e até cósmicas.
Paralelo a isso, tentar
analisar minimamente como o processo “civilizátório” do colonialismo moderno e
o seu fracasso teórico, que chega ao seu auge dominatório, se inserem nesse
processo produtivo de subjetividade e na culminante “crise global”.
Buscando numa explanação
mais pormenorizada dos conceitos desenvolvidos na década de noventa por
Guattari, o final de sua vida, e nas suas conseqüentes repercussões em outros
autores, que já escrevem inseridos no novo milênio, as sinalizações das
aberturas para novos campos de possível para a práxis política em geral, e para
o ambiente.
PALAVRAS-CHAVE: Félix Guattari, produção,
subjetividade, Caos, política, desterritorialização, estética, esquizofrenia,
ecosofia, Caosmose, Capitalismo Mundial Integrado, revolução molecular,
engendramento.
“Não
estamos mais lá para existir, mas para realizar nosso dever de consumidor.”
Félix
Guattari,( Caosmose: um novo paradigma estético. 1992.
Do capítulo: Oralidade Maquínica e Ecologia do
Virtual. Pág.114)
SUMÁRIO:
Prelúdio:
Introdução para uma introdução.
Uma introdução fora do tempo (ou do
texto);
o texto e a
máquina:........................................................................
5
INTRODUÇÃO:
Félix Guattari:
esquizo-trans-analista-sofo-filo-prático:.........................................
7
Movimentos
Geo-lógicos:
Pensamento e território:.................................................................15
Rizomática:....................................................................................17
Diagnósticos
e Prognósticos:
CMI:...............................................................................................
20
Ecosofia e ecologia do virtual:
a “Caosmogênese” das
potências.:.............................................. 25
Conclusão:
Práxis
ontológicas e outros crimes exemplares:
CMI hoje; info-economia e
semio-capital.
Alguns novos conceitos do século XXI.:......................................30
A batalha Temporal e a Demiurgica
social.:.................................31
Prelúdio:
introdução para uma introdução. Uma introdução fora do tempo (ou do texto); o
texto e a máquina.
É com distanciamento de
quem opera a partir de um foco de fala não “tradicional” na filosofia: o Brasil.
Que essa dissertação tentará se constituir.
Não como um mero comentário a respeito
da obra teórica de um autor, uma mera explanação do entendimento do conjunto de
conceitos que a compõe. Ela tenta ser antes, máquina, biblio-bio-gráfica, que
opera e faz conceitos, não se quer apenas manipular e fazer funcionar
conceitos, lhes, dar novos tons e matizes: mas também, criá-los. O objetivo
dessa dissertação, não falar de conceito “A” ou “B”, ou de “A” em “B”, ou
chegar do ponto “A” ao ponto “B”. Seu objetivo é na realidade “ela” mesma. A
dissertação em quanto uma máquina, uma estrutura. É uma tentativa de assim,
talvez efetivar o conteúdo filosófico em estudo em sua própria formatação
textual. Uma teoria estudada efetivada numa práxis ontológica dissertativa,
Assim o texto em sua completude, em seu corpo, já presume a si próprio.
Como escrever um texto sobre Kant sem ser um
pouco kantiano? Assim como, escrever sobre Félix Guattari sem ser “Diabólico”?
INTRODUÇÃO:
Félix
Guattari: esquizo-trans-analista-sofo-filo-prático
O conjunto formado pelas
subjetividades dos seres humanos “no geral”, tem passado por um drástico e
intenso processo de desterritorialização, uma desterritorialização integradora.
Uma quantidade imensurável de pessoas que tem ou que tiveram suas
subjetividades desterradas de seus territórios existenciais originários e
arremessadas em um mundo virtualizado onde só existe espaço para a
auto-realização no consumo. Além claro daquelas que já nascem inseridas,
emergidas neste processo de artificialização ontológica. Quantidades imensas de energia libidinal
humanas são canalizadas, adestradas para estabelecer uma relação afetiva com o
consumo. Uma estratégia econômica, já que na agenda dos grandes economistas o
crescimento exponencial e de forma irrestrita das formas já existentes de
consumo e a constante fabricação de novas outras formas de consumo, está como
meta e ideal.
Este processo que se
expandiu dos objetos para as mentes, e agora assume proporções planetárias, tem
sua origem na expansão colonizadora “civilizatória” do ocidental sobre o resto
do globo, isso quer dizer; Cristianismo, Europa, Modernidade, Ciência,
Humanismo, Capitalismo, Colonialismo, Estados Unidos...
No
entanto até mesmo alguns destes totens começam a se desintegrar. Após as
revoluções industriais do inicio do século XX e a revolução das
telecomunicações culminada na virada do século, o processo biológico ao qual
chamamos de vida humana entrou em um outro processo cada vez mais veloz de
mudança. Marcado pela contraditoriedade
que apenas um processo esquizofrenizante como o Capitalismo poderia
proporcionar. De um lado, cada vez mais a vida é a mesma em todos os lugares.
Homogênea e asséptica, a mesma estética mercadológica das hiper-redes de
consumo. Do outro cada vez mais se intensificam processos identitários,
reificados em estruturas fantasmáticas; xenofobia e nacionalismos, ou
identidades infantilizadas agregadas a algum tipo de culto coletivo consumista,
identidades estabelecidas a partir de objetos consumidos.
Os
estados modernos em suas antigas estruturas baseadas nas identidades nacionais
que tinham seus territórios demarcados em noções bem mais arcaicas, que já
foram perdidas, de “comunidade”; começam a roer frente à cultura pop, o domínio
subjetivo e material que as corporações detêm já vem corroendo as fronteiras há
algum tempo. Esse aumento exponencial de poder cedido as megacorporações começa
a esvaziar de poder simbólico os estados e a diminuir o valor da vida.
.
Fazer a filosofia nos dias
de hoje não pode ser apenas um exercício, intelectual, mental da grande razão
iluminista. Não podemos nos fazer de cegos perante à contraditoriedade inerente a realidade que nos cerca. Uma
pessoa que se dedique a atividade filosófica não pode se abster a palavra
crise, esta, é evidente, tão evidente que está palavra esta estampada nas capas
dos principais jornais e é veiculada a todo o momento nos mais diversos meios
de comunicação. No entanto os termos e a forma como essa crise (a crise
econômica mundial) é divulgada, ainda estão claramente distantes das verdadeiras
crises que se processão no nosso abalado e confuso tecido social temporal.
Da perspectiva apresentada
pelos meios de comunicação, temos apenas duas crises em andamento, e as duas
muito bem setorizadas:
Uma é a crise um pouco
mais antiga e que acompanha de certa forma o tempo e a ordem das geomudanças: Mudanças lentas e graduais.
Mas que podem ocasionar mudanças grandes e repentinas, de proporções
planetárias: A crise climática. O assim
chamado “aquecimento global” que já é bem conhecido desde a década de 90, quando
esta ainda era conhecida apenas como o bom e velho “efeito estufa”. E temos a
novíssima crise das bolsas de valores estadunidenses, denominada
jornalisticamente como o caos financeiro, ou crise das bolhas econômicas, ou
simplesmente a Crise. No entanto em momento algum as duas crises são
relacionadas dentro do horizonte da grande mídia. E outras graves crises em
andamento não são nem ao menos mencionadas, pelo menos, não diretamente.
Um sistema econômico e
social baseado no consumo na produção e nas expectativas destes, onde a própria
expectativa é objetificada e se torna objeto de venda e especulação. A
acumulação indefinida de capital carrega em si a falsa promessa de
auto-realização e felicidade. Claramente numa cultura que se auto-realiza em um
território tão desmaterializado e virtual quanto o do Capital, da sociedade de
Mercado. Quem pagará a conta é o planeta, resta-nos saber qual será a sua taxa
de juros para com a “humanidade”.
A filosofia sempre teve um
papel de diagnóstico, talvez caiba ao filosofo essa figura extemporânea, tentar
nos momentos de crise generalizada, pelo menos dimensionar a amplitude,
mensurar o tamanho da cratera deixada pelo vácuo dessa passagem cataclísmica da
História humanidade.
Assim, cabem as pessoas
que ocupam os espaços ainda dedicados ao livre pensamento forjar ao menos as
indicações das possibilidades de existência e de resistência que possam surfar
no caos cataclismático que estamos à deriva.
Paradoxalmente, o marco
para o pensamento filosófico ocidental contemporâneo, que se propõe um
território tão arriscado como esse descrito; o da confrontação com o horizonte
sombrio que a humanidade prepara para si mesma, estabeleceu-se, fora da
filosofia, mais precisamente dentro das praticas de saúde e operacionalidade
mental.
Félix Guattari no início
seu pequeno livro, as três ecologias diz: “O planeta Terra vive um período de
intensas transformações técnicocientifícas, em contrapartida das quais
engendram-se fenômenos de desequilíbrios ecológicos que, se não forem remediados,
no limite, ameaçam a implantação da vida em superfície.”[1]
Paralelo a esses
desequilíbrios ecológicos ambientais Guattari, identifica outros tipos de
desequilíbrios, e os inter-relaciona. No mesmo parágrafo ele segue dizendo: “Paralelamente
a tais perturbações, os modos de vida humanos individuais e coletivos evoluem
no sentido de uma progressiva deterioração. As redes de parentesco tendem a se
reduzir ao mínimo, a vida doméstica vem sendo gangrenada pelo consumo da mídia,
a vida conjugal e familiar se encontra freqüentemente “ossificada” por uma
espécie de padronização dos comportamentos, as relações de vizinhança estão
reduzidas a sua mais pobre expressão...
É a relação da
subjetividade com sua exterioridade – seja ela social,
animal, vegetal, cósmico – que se
encontra assim comprometida numa
espécie de movimento geral de implosão
e infantilização regressiva.”[2]
Félix Guattari escreveu isso em 1989, quando se começava a falar nos
grandes meios, em ecologia ambiental e crises climáticas, no entanto a crise
que abala as subjetividades já começava a atingir seu auge. Guattarri, já
propunha uma espécie de apropriação filosófica da matéria ecologia e a colocava
no horizonte da problemática subjetiva; a ecosofia,
que será tratada mais adiante no texto.
São esses tipos de
movimento que o pensamento de Félix Guattarri realiza, movimentos de
apropriação conceitual, paralela a todo um movimento trans, transdiciplinar, já que o seu pensamento fala para várias áreas
especificas ou especifizadas do saber e da cotidianidade. Entrecortando-as e relacionando-as;
Além de seu grande talento para produzir diagnósticos sobre seu tempo,
qualidade já demonstrada pelas citações anteriores; Que vão despertar o
interesse inicial deste ensaio.
No entanto Félix Guattari,
realmente, não é propriamente um filósofo. E, apesar de hoje muitos o
considerarem, na realidade, nem mesmo ele se considerava um. Não que ele não
trabalhasse com filosofia, não a operasse. Afinal, escreveu e produziu vários
livros e textos, sozinho ou em conjunto (neste caso, muitas vezes junto a
filósofos, sendo o mais famoso e o que proporcionou uma maior produção em
conjunto; Gilles Deleuze), com o conteúdo extremamente perpassado pelas
perspectivas e operacionalidades filosóficas.
Suas atividades profissionais
que se focavam no campo da psicopatologia e da psicoterapia, assim como o seu
engajamento político e cultural, o levaram a enfatizar cada vez mais a
subjetividade como algo produzido nas instâncias individuais, coletivas e
institucionais. Assim é sua introdução no capitulo: “Da produção de
subjetividade” [3], onde
ele expõe e contextualiza a origem da motivação de toda sua produção
intelectual. Uma produção, assim, toda ela sempre perpassada pela práxis.
Na década de 70, Félix
Guattarri e principalmente Gilles Deleuze, ganharam muita popularidade com o
lançamento do livro escrito em conjunto; “O Anti-Édipo” [4]. A
partir daí, sua produção em conjunto se amplia durante a décadas seguintes
criando vários pontos de indicernibilidade entre o pensamento desses dois
autores. O que diretamente compatível com o conteúdo de seus livros
desenvolvidos em
conjunto. Assim em certa medida não podemos falar de um
pensamento Deleuziano ou Guattariniano, já que inclusive estes, “os seus
pensamentos”, se estabeleciam em territórios distantes da autoria e da
propriedade. No entanto a partir desses territórios e coodernadas estabelecidos
e traçados em comum, os dois, dentro de suas múltiplas alteridades e interesses
distintos, desenvolvem outros pensamentos e ocupam outros territórios possíveis,
mas carregando sempre com si, resquícios desse “bom encontro”.
Assim, é no livro, “O
Anti-Édipo”, que Deleuze e Guattari, em um movimento teórico
anti-pisicanálitico vão contextualizar a subjetividade em sua dimensão de
produto, o inconsciente em quanto uma usina.
A noção que vai perpassar toda a
programática conceitual desenvolvida na obra de Guattari. Contrária ao
inconsciente Freudiano calcado na subjetividade representativa, um teatro
simbólico do mundo.
Posteriormente na década
de 80, no prefácio para o livro, Mil Platôs[5],
uma continuação para o “Anti-Édipo” eles resumem seus objetivos programáticos
estabelecidos no “Anti-Édipo” em três principais eixos, no livro eles dizem:
“Os três temas do Anti-Edipo
eram os seguintes:
1o) o
inconsciente funciona como uma usina e não como um teatro (questão de produção,
e não de representação);
2o) o delírio,
ou o romance, é histórico-mundial, e não familiar (deliram-se as raças, as
tribos, os continentes, as culturas, as posições sociais...);
3o) há
exatamente uma história universal, mas é a da contingência (como os fluxos, que
são o objeto da História, passam por códigos primitivos, sobrecodificações
despóticas, e descodificações capitalistas que tornam possível uma conjunção de
fluxos independentes).”[6]
A subjetividade produzida,
auto-produzida, consciente da potência do delírio e capaz de descodificar as
codificações capitalistas.
É essa abertura subjetiva,
produzida no “Anti-Édipo”, que Deleuze e Guattari vão querer fazer funcionar em
“Mil Platôs”. São as possibilidades de
territórios vislumbradas no “Anti-Édipo” que vão ser percorridos em “Mil
Platôs”. Talvez “Mil Platôs” seja o auge da produção intelectual coletiva
desses dois pensadores, talvez “Mil Platôs” seja o auge da produção filosófica
Ocidental. Capaz até de desenraizar o Ocidente.
Em “Mil Platôs”, Guattari
e Deleuze retomam e amplificam a potência do livro. Do livro em quanto
mecanismo, corpo mecânico funcional, uma parte do texto sempre está na
perspectiva de engrenagem de outras partes que se engrenam. Mas ele não exige
que o leitor conheça todas as partes para que o livro funcione.
Mil platôs não é um
clássico, nem o pretende ser, não há em seu estilo o vulto da eternidade, ele é
um múltiplo mapa para a multiplicidade, ele já nasce recortado, desfragmentado.
“Mil Platos” é um livro solúvel, “aforismátisavel”.
Caixas de maquinarias filosóficas prontas para
serem apropriadas, é o resgate de uma cultura tuaregue que permite o roubo, que
o identifica com a liberdade. É como a ausência de sentido que a palavra
“propriedade” assume na cultura indígena. Cultivam, contra a univocidade do
“eu”, uma mutante territorialidade ontológica de quem plenamente “ocupa” o
espaço que lhe cerca, conhece as “trilhas”, os esconderijos, as tocas, as
fontes, o geo-pensamento.
No entanto esse tipo de
pensamento exige uma pronta potência desconstrutiva atualizante. A coragem da
aventura nômade no pensamento. Mil Platôs é um livro para aventureiros, piratas
e vagabundos, bruxos e canibais, é um livro pra quem joga RPG, pra quem surfa,
pra quem pratica wushu, pra quem tem corpo em geral, para os cientistas, os verdadeiros
cientistas e até mesmo para alguns filósofos.
Essa abertura ontológica
que Guattari e Deleuze nos oferecem, é algo que também, claro, se apresentou a
eles. É a indicernibilidade entre vida e obra que acompanha os grandes autores.
E é nesse “rastro” deixado por “Mil Platôs” que esse texto pretende
reconstituir a programática conceitual desenvolvida ao final da obra de
Guattari, como uma teoria política da práxis ontológica. Suas conseqüências e
sinalização.
Movimentos
Geo-lógicos
Pensamento e território.
“O sujeito e o objeto oferecem uma má aproximação do pensamento.
Pensar não é nem um fio estendido entre um sujeito e um objeto, nem uma
revolução de um em torno do outro. Pensar se faz antes na relação entre o
território e a terra.”[7]
Pensar é algo que se faz sempre a “partir
de...”. Um mesmo pensamento tem variedades quase infinitas de preenchimento
desta sentença. São os pontos de partida, as coordenadas, cartografias
invisíveis do pensamento. A substancialidade invisível das palavras. Os
territórios de um pensamento se estabelecem muitas vezes no campo do não dito
no texto, é um fator quase semiótico: As entrelinhas, o inter-texto.
No
entanto, o que é essencial ao pensamento, são os corpos. Não se pensa sem um
corpo, mesmo um pensamento que se pretende incorporal puramente intelectual
possui seus corpos, seus personagens: de que se alimenta a razão pura kantiana?
O pensamento é capaz de criar seus
corpos, seus organismos vivos corpos virtuais, máquinas complexas abstratas que
adquirem autonomia, vida própria, paralelo a esses corpos, ou simultâneo, a
esses corpos, estão ar coordenadas, as cartografias, o território com todas
suas especificidades topográficas, é o que Guattari e Deleuze vão chamar de
“Plano de imanência”, em seu livro “O que é a Filosofia?”.
Neste livro eles tentam definir os
contornos do que seria a atividade filosófica e a Filosofia, para isso, eles
também definem outras atividades distintas e interligadas entre si e a
filosofia: a Ciência e a Arte. Sempre paralelo a isso há um trabalho
demonstrativo, a operacionalidade nômade do pensamento e o delírio produtivo do
inconsciente.
O inconsciente é como a terra, produz
fluxos e movimentos. Irrompe em erupções, promove deslocamentos,
desterritorializações. Como a terra, ele é uma grande máquina.
“Os conceitos são o arquipélago ou a ossatura, antes uma coluna
vertebral que um crânio, enquanto o plano é a respiração que banha essas tribos
isoladas. Os conceitos são superfícies ou volumes absolutos, disformes e
fragmentários, enquanto o plano é o absoluto ilimitado, informe, nem superfície
nem volume, mas sempre fractal. Os conceitos são agenciamentos concretos como
configurações de uma máquina, mas o plano é a máquina abstrata cujos
agenciamentos são as peças. Os conceitos são acontecimentos, mas o plano é o
horizonte dos acontecimentos,” [8].
Os conceitos são como os povos que se
proliferam, cruzam-se, aniquilam-se e negociam entre si.
Caravanas conceituais atravessando
regiões. Tentando sobreviver às intempéries do clima e do relevo. Buscando não
serem atacadas por outros grupos de conceitos que matam, raptam e roubam.
O conceito é criado ao passo que o plano
é instaurado,sempre simultâneo ao conceito, para que este, o conceito, possa
passar por ele. O “plano de imanência” é sempre uma abertura para o infinito;
Guattari e Deleuze dizem:
“Um conceito é um conjunto de variações
inseparáveis, que se produz ou se constrói sobre um plano de imanência, na
medida em que este recorta a variabilidade caótica e lhe dá consistência
(realidade). Um conceito é, pois, um estado caóide por excelência; remete a um
caos tornado consistente, tornado
Pensamento, caosmos mental.”[9]
Para Guattari e Deleuze, a filosofia é
isso, a criação de conceitos, a operacionalidade dessas estruturas mutantes,
que sempre se conectam, se remetem a outros conceitos; um povo sempre veio de
outro povo, um conceito sempre remete a outros conceitos. E claro
simultaneamente esse conceito é remetido a um território, assim como um povo
sempre ocupa um território ou múltiplos territórios. Mesmo que estejam apenas
de passagem.
Paralelo a esse exercício de delineamento
de contornos e buscas de processabilidades e funcionamentos, dessas três disciplinas,
aparece sempre a imagem do pensamento, o território por excelência dessas
disciplinas. O pensamento aparece como o vórtice que atravessa, faz furos, no
cosmos, nos revelando vislumbres e experiências do caos que está por trás de
todo cosmo, toda cosmologia que se cristaliza tenta encobrir o caos,
pavimentá-lo, é a opinião, a Doxa, elevada a uma potência transcendente; A
Filosofia, a Arte e a Ciência seriam nossas britadeiras.
#
Rizomática:
“Um rizoma não começa nem
conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo.
A árvore é filiação, mas o rizoma é aliança, unicamente aliança. A árvore
impõe o verbo "ser", mas o rizoma tem como tecido a conjunção
"e... e... e..." Há nesta conjunção força suficiente para sacudir e
desenraizar o verbo ser.”[10]
Retirar o verbo ser de sua
raiz metafísica moderna, a da identidade, da unidade e do Universal; dentro do
pensamento filosófico significa uma abertura de possibilidades infinitas
liberadas para o pensamento no século XXI: a potência do pensamento do devir
Heráclitiana retomada transmutada, trans-desterritorializada infectada de
Horfismos e Hermetismos, prenha de intensidades tropicais: O filosofo que
desembarca no inferno da selva, que é acolhido por indígenas e depois devorado
por eles. Las bruhas del pensamiento. O Xamã que vira uma onça. Ou
mesmo o resgate de um devir oriental talvez, o Tao: A Ásia ainda surpreenderá o mundo novamente!
Ou seja, a atividade
filosófica passa a não pertencer apenas ao pensamento branco ocidental, a razão
lógica analítica perde sua pretensão de univocidade, sem essa pretensão; O que
restará a esta?
Aquela velha questão está
resolvida: podemos falar de filosofias não sistemáticas, fora da cultura ocidental
do “papel”, do autor e do texto; o best
seller filosófico. Podemos falar da filosofia de um povo? Podemos falar de
uma filosofia dos URU-PA-IN e dos URU-EU-WAU WAU, ou dos KREN-AKARORE, dos
TAPIRAPÉ, MACUXI e KARAJÁ?[11]
A “impossibilidade” seria
como se não pudéssemos discernir entre a matéria filosofia e os seus fluxos
históricos, os quais são sempre decodificados pelo poder despótico e as conjurações
capitalistas, mas a Filosofia sempre terá uma herança grega, por vezes oculta,
mas sempre pronta a conectar. Está herança que os povos gregos deixaram para o
mundo nada tem a ver com a universalidade Ocidental, branco, européia que foi
inventada.
O rizoma é um conceito botânico apropriado
pela filosofia, uma cópia atualizada, do antigo movimento de trazer a estrutura
da “raiz” para dentro do pensamento; raiz pivotante, unívoca ou biunívoca; para
utilizar os termos certos.
Os rizomas são os
tubérculos, algumas gramíneas, bananeiras... Não há semente, partícula
fundante, do pensamento: um cogito,
ou um uno. O rizoma se prolifera, uma
brotação múltipla não de princípios, mas de coordenadas tempo-espaço no
pensamento.
A teoria rizomática
prolifera-se rizomatizando! Um rizoma não tem começo nem tem fim, qualquer
parte sua pode e deve ser conectada a outra. Rizomátizar a Filosofia, não só
fazer uma filosofia rizomática, mais libera-lá de seu fluxo histórico dominante
onde a trilha de pontos a serem conectados já esta dada pelo fluxo dominante:
antiga-medieval-moderna; quantas vozes e tons de pele são calados por essa perspectiva?
Diagnósticos e
Prognósticos
CMI
Félix Guattari durante o
fim da década de 70 identifica um processo emergente do Capitalismo no mundo,
decorrente da abertura dos mercados e das revoluções telemáticas; satélites,
internet, celular.... Tal processo, conhecido na década de 80, 90 como: Globalização,
realizado pelas forças produtivas industriais, amparados pelas maquinárias
estatais e pela ideologia neoliberal. É identificado por Guattari como uma nova
fase do processo capitalista industrial identificado por Marx. Algo que não foi
previsto.
Para Marx o Capitalismo se
expandiria até que em um ponto, naturalmente tenderia ao comunismo; se
expandindo a partir de uma espécie de programática. O que, Marx não previu, é
que mesmo após o Capitalismo ter se expandido para praticamente toda a superfície
do globo transformando suas forças produtivas industriais a ponto de causar um
iminente colapso ambiental planetário que em ultima instância pode até
inviabilizar a vida humana na terra, ele, o capitalismo, não pararia.
É que o Capitalismo não
opera a partir de uma programática e sim a partir de axiomáticas, ou seja, ele
não possui um programa definido, sobrevive se adaptando, mutando, um modo de
operar caótico, similar ao funcionamento de um vírus, ele se alastra.
Essa última e monstruosa
fase do Capitalismo, esse Capitalismo Apocalíptico é denominado por Guatarri,
como CMI, o Capitalismo Mundial Integrado. Guattari diz:
“O Capitalismo
contemporâneo é mundial e integrado porque potencialmente colonizou o conjunto
do planeta, porque atualmente vive em simbiose com países que historicamente
pareciam ter escapado dele (os países do bloco soviético e a china) e porque
tende a fazer com que nenhuma atividade humana, nenhum setor de produção fique
fora do seu controle” [12].
O CMI é Capitalismo
Mundial e integrado, justamente porque a sua ocorrência se dá simultânea, em
toda a superfície do globo. É um movimento terrestre, ou terráqueo,
mundializado, quase comparável a uma força natural devastadora. Ele
correspondente a um mesmo tempo, a um só tempo homogêneo e canalizado. E
integrado porque junta tudo e a todos sob a égide do Capital e da
Capitalização, do consumo e da mercantilização:
“0 capitalismo pós-industrial que, de
minha parte, prefiro qualificar como Capitalismo Mundial Integrado (CMI)
tende, cada vez mais, a descentrar seus focos de poder das estruturas de
produção de bens e de serviços para as estruturas produtoras de signos, de
sintaxe e de subjetividade, por intermédio, especialmente, do controle que
exerce sobre a mídia, a publicidade, as sondagens etc.”[13]
Quando Félix Guattari
começa a perceber o ápice dessa integração que é a desfocalização da produção
industrial material para a produção sofisticada da subjetividade, a produção em
série da mente pela mente, algo além de um termo do tipo “indústria cultural”
ou cultura de massas.
Ele é levado a escapar da concepção
freudiana de estruturação do inconsciente e da subjetividade a partir da
representação do teatro, para assumir a usinagem do inconsciente, encarar a
subjetividade em quanto algo produzido.
Paradoxalmente o
Capitalismo só veio a confirmar a teoria da década 70, de que a subjetividade
opera a partir do paradigma de sua produção: sofisticando cada vez mais seus
meios de sondagem, de controle e de produção de “tipos sociais”.
Toda
produção material passa a ser regida por fatores subjetivos e semióticos: os
carros não são produzidos mais para nos locomovermos e sim para a satisfação do
desejo de algum tipo especifico de faixa, de zona, de banda subjetiva: são os
públicos, alvo. As valas que o capitalismo cava para as subjetividades
desterradas terem a esperança de algum dia alcançarem algum território existencial
autêntico, só que essa falsa realização só se dá na perspectiva do consumo, o
consumo que irá nos libertar, ele que ira no reintegrar ao território perdido:
“O ser humano contemporâneo é
fundamentalmente desterritorializado. Com isso quero dizer que seus territórios
etológicos originários - corpo, clã, aldeia, culto, corporação... - não estão
mais dispostos em um ponto preciso da terra, mas se incrustam, no essencial em
universos incorporais.” [14]
Esse ser humano produzido
em duas décadas e manipulado a todo instante, construído e desconstruido
conforme as modas, as “tendências”. fruto
do fim do processo expansionista próprio das fases coloniais e imperialistas.
Depois de explorar e conquistar todas as superfícies economicamente produtivas
do globo o capitalismo se encontrou em uma espécie de cerco, já que o planeta
praticamente acabou. Não há mais corridas exploratórias desenfreadas, busca por
jazidas minerais em geral, já se conhece praticamente o planeta inteiro, logo
todos os lugares já tem um dono, já estão ocupados.
Isso impele o capital a se
recompor internamente o tempo inteiro. Guattari aponta que com o fim da possibilidade
de expansão material as possibilidades de expansão:
“Sua expansão, seus meios
de crescimento, o CMI deverá doravante encontrá-los trabalhando as mesmas
formações de poder, remanejando as relações sociais e desenvolvendo mercados
cada vez mais artificiais, não só no campo dos bens, mas também no das
informações e dos afetos” [15] .
Essas operacionalidades
construtivistas, instauradoras de regimes semióticos homogenizantes são
divididas basicamente em quatro instrumentos sob os quais repousam o CMI:
“a) as semióticas
econômicas (instrumentos monetários, financeiros,
contábeis, de decisão ...
);
b) as semióticas
jurídicas (título de propriedade, legislação e
regulamentações diversas
... );
c) as semióticas
técnico-científicas (planos, diagramas, programas,
estudos, pesquisas ... );
d) as semióticas de
subjetivação, das quais algumas coincidem com as que acabam de ser
enumeradas mas conviria acrescentar muitas outras, tais como aquelas relativas
à arquitetura, ao urbanismo, aos equipamentos coletivos, etc.”[16]
Podemos ressaltar de cada
ponto os seguintes aspectos em termos de suas atualizações:
a: A semiotização da
economia tem seu marco no fim do lastreamento das moedas pelo ouro: A grande
jogada do federal reserve*. O banco
central estadunidense, que é uma instituição
“privada”. Responsável pelo gerenciamento da quantidade de dólares no mundo.
Lastreou a economia norte-americana em seus próprios títulos de governo, e cada
dólar que entra na economia é uma espécie de empréstimo concedido ao governo;
ou seja, o dinheiro que começa a gerar mais dinheiro a partir do nada. Após
essa virtualização da economia interna investiu-se no aumento do poder da
semiótica do “dólar”, como? Emprestando-o, para todos os lugares, abarrotando e
dilacerando economias pelo mundo inteiro, com a desculpa de ajudar no
desenvolvimento dos povos.
Várias foram os mecanismos
de controle e regulamentação semióticos criados pelo sistema financeiro; os
“índices” de valorização que fazem ações cair e subir a partir de flutuações de
humor das opiniões dos investidores. Fazendo estrategicamente um produto
específico subir ou cair: a desvalorização dos alimentos produzidos pelo mundo
não desenvolvido frente à tecnologia do primeiro mundo.
Além dos índices de “risco
país”, onde o servilismo ao capital financeiro mundializado se torna uma
espécie de gincana, de competição, onde cada economia recebe uma nota de acordo
com as facilidades que essa oferece para entrada do capital dilacerante, que
irá entrar, comprar as maiores indústrias falir as menores, substituir os
comércios locais por grandes redes de consumo e privatizar as estruturas
básicas que o estado oferece a população: saúde, segurança, educação,
comunicação e até mesmo o fornecimento de água e esgoto.
b) Todas essas manobras
econômicas que ocorrem nos estados, necessitam de uma aparência de legitimidade
e lisura. Estes processos mafiosos precisam construir alguma legitimidade
mínima frente à opinião pública. Uma forma de escamotear os verdadeiros
interesses externos que impelem uma economia a se afrouxar.
Neste
ponto, operam a máquinas burocráticas de estado, velhas e arcaicas, totalmente
não condizentes com o nível de mobilidades e trocas subjetivas que as
sociedades alcançaram. Mas essas máquinas se utilizam da semiótica da
legitimidade “democrática”, elas existem por direito.
Como
essa estrutura estatal é uma máquina completamente falida, seus componentes,
normalmente as elites locais que só busca seus próprios interesses, são todos
facilmente comprados pelo capital estrangeiro: que acaba encontrando a porta
das economias abertas com um tapete vermelho estendido. Essa cor não é em vão.
c)
Essas são a semióticas de controle social pautadas no poder de verdade que as
ciências alcançam nas subjetividades e a farsa de sua pretensa isenção.
A
pesquisa de ponta que ocorre para o desenvolvimento de novas tecnologias hoje é
substancialmente bélica. No entanto, esse é um desenvolvimento oculto. Paralelo
a esse desenvolvimento outros tipos de tecnologia de submissão e controle são
desenvolvidas:
As
tecnologias de entretenimento, de saúde social; física e psíquica. Passam pelo
crivo de controle semiótico do capital: O interesse envolvido no financiamento
de uma pesquisa, os resultados dessa. E a divulgação ou não, e em que meios,
dos resultados obtidos.
d)
Muitas outras. Como Guattari demonstra todas essas semióticas de controle,
cruzam-se, se atravessam e se complementam criando essas zonas descentradas de
indicernibilidade; somos manipulados: mas por quem e por onde? Como focar um
alvo?
Assim o Capitalismo
Mundial Integrado e seus efeitos nas subjetividades que produzidas e seus
mecanismos de implementação e vigência, podem ser resumidos em duas citações de
guattari:
“O objeto do CMI é,
hoje, num só bloco: produtivo-econômico-subjetivo.” [17] “Assegurando-se
do poder sobre o máximo de ritornelos existenciais para controlá-los e neutralizá-los,
a subjetividade capitalística se enebria, se anestesia a si mesma, num
sentimento coletivo de pseudo-eternidade.” [18].
#
Ecosofia
e ecologia do virtual: a “Caosmogênese” das potências.
Diante deste contexto
mundial de regressão e implosão subjetiva. O qual vimos anteriormente: já se
alastrava pelo planeta na década de 80. Guattari elabora sua proposta
“ecosofica”. O conjunto das assim
chamadas “três ecologias”, uma ampliação do conceito de “ecologia” e do
conceito de meio ambiente.
O marco para a
consideração da questão ambiental dentro das perspectivas filosóficas.
A ecosofia propunha a elaboração
e o desenvolvimento de três registros diferentes de ecologia, mais ambos
interligados entre si: Uma ecologia do meio ambiente, outra das relações
sociais e por fim uma ecologia da subjetividade.
Três registros que
potencializados estão em direto contato com potências invisíveis as quais
possibilitam as transversalidades entre os três registros.
São essas estruturas imateriais
que compõe a tessitura do mundo a sua sensibilidade subjetiva, pois há uma sensibilidade
subjetiva um sentido realmente material na experiência do pensamento.
Essa dimensão de forças invisíveis
materiais e imateriais que concorrem para a formação de nossa subjetividade.
Vão ser posteriormente foco de estudo e de criação conceitual para guattari.
Ao decorrer de seu estudo
sobre a produção e a subjetividade, subjetividade em sua constante mutabilidade
e gênese. Que vai surgir o conceito de “Caosmose”.
Esse conceito, como
qualquer outro conceito filosófico, surge na filiação e desterritorialização de
um conjunto de aglomerados de conceitos, alguns pressupostos e outros não, que
instauram as coordenadas imanentes de uma teoria. É contra uma noção de
estrutura, de estruturalismo; que se instauram os conceitos de Máquina e
produção. Com isso, várias potências invisíveis e caóticas foram liberadas:
“tratar-se-ia de reconciliar o caos e a complexidade”[19]
como diz o próprio Guattari. Peter Pál Pelbart, autor Húngaro nacionalizado
brasileiro, um dos grandes interlocutores que ainda se movimentam na abertura
inventada por Félix Guattari. Resume essa abertura ontológica para
imanência: aniquiladora das instituições
despóticas da transcendência e do significante, da seguinte maneira:
“Mas o que importa é o fato de que essa concepção maquínica,
nada "naturalista", já que faz do Universo uma grande fábrica,
estendendo a produção engendrante para todos os níveis, serviu de base para
apreender de um modo novo o domínio não discursivo. O não discursivo, ao deixar
de ser uma matéria informe à espera de uma estruturação significante, ganhou
uma potência infinita. O resultado foi um mundo material e imaterial sem
centro, sem instância determinante, sem transcendências despóticas nem
equilíbrios reasseguradores. O diabolismo filosófico.”[20]
É o agenciamento ao invés da meta, é optar por diferir,
multiplicar; ao invés de homogeneizar, unificar, uni-lateralizar...
É que não existe mais o SER, como equivalente ontológico
universal seres, em constante criação e desagregação: o ser em devir, um riacho
sem inicio nem fim, que rói suas duas margens e adquire velocidade no meio. [21]
Assim,
são essas potências virtuais e imateriais do devir que se quer colocar sobre
atenção dos três registros ecológicos postulados pela ecosofia.
O
devir do ambiênte: Não só os biomas e os inter-biomas, cerrado caatinga; mas
também os homens desses biomas, o sertanejo em sua potência máxima se torna o
próprio sertão. A indicernibilidade entre floresta e índio.
São
os três registros ecológicos atravessando as questões urbanísticas. Uma
aproximação entre arquitetura e medicina, uma medicina não só do corpo. Esses
profissionais do espaço devem perceber a dimensão produtiva de seu trabalho,
não apenas a partir de sua materialidade, da produção do “espaço” em si, mas
também dos ritornelos e diagramações de afetividade que seus espaços irão
infringir.
Como
sempre, trata-se de uma escolha, uma escolha das intensidades que se quer fazer
proliferar. Guattari diz sobre os arquitetos:
“Eles devem assumir uma
posição de se engajar (como se dizia no tempo de Jean-Paul Sartre) quanto ao
gênero de subjetividade que ajudam a engendrar.”[22]
O
devir das relações sociais: portanto se dará sempre perante e paralelo ao devir
e as potências ambientais: É a rua das “putas” em frente ao CONIC[23], em Brasília. A rua é
pública, mas é acima de tudo das “putas” e em certa medida a prostituta também
é pública. E em sua potência máxima a rua inteira é uma “puta”, na realidade
uma multiplicidade de “putas” e travestis que no caso também são “putas”. Indissociáveis do próprio ambiente, dos
contornos e arestas escuras das sombras dos viadutos. A rua é também o volto na
calçada.
Convém
assim, repensar também as nossas cidades na perspectiva da produção que os
espaços vão ter na multiplicidade de relações sociais: Uma rua duplicada ao
invés de uma praça.
Mas
são muitas outras as intensidades que estão sob a óptica da ecologia das
relações sociais a exemplo de, podemos inferir: a relação social que
estabelecemos com o consumo, que neste sentido vai para além da relação consumo
ambiente, e sim a gama de relações sociais que existem entre o consumo e o
“consumidor”; em que medida o entregador é visto como um ser humano? Em que
medida o local psicológico do dito “consumidor” também não é dotado de diversas
características inumanas.
Mas
não só as relações sociais envolvidas no consumo, mas também no esporte, no
turismo, na arte, na vizinhança.
Aparece
novamente a questão da produção. Quando o Universo inteiro é encarado como uma
usina, as coisas não param de se multiplicar, de se alastrar, Bifurcamentos. A
produção aqui, não é só a produção de aspectos materiais ou imateriais nesses
três domínios, mas também a produção de possibilides outras, de produção: a
produção de possíveis.
A
Ecosofia, portanto, pretende a partir de uma “radicalidade demiúrgica”[24]
do conceito de produção gerir “caosmicamente” esses três registros sempre no
horizonte do enriquecimento e proliferação das possibilidades de existência. O
enriquecimento desse fenômeno ao qual chamamos de vida.
Conclusão:
Práxis ontológicas e
outros crimes exemplares.
CMI
hoje; info-economia e semio-capital; Alguns novos conceitos do século XXI.
[Bifo]: Franco Berardi, filosofo italiano grande amigo e
colaborador de Félix Guattari quando este ainda era corporalmente vivo, é um
dos pensadores que mantém um dialogo vivo com a obra de Guattari. E que não
podiam deixar de figurar nesta dissertação. Não como um comentador, mas como um
intelocutor.
“Bifo”,
em sua pesquisa continuou a acompanhar a desenvolvimento e a mutação dos
fatores semióticos que a economia passava a agregar quando Guattari cunhou o
termo “CMI”. E neste sentido ele criou
vários novos conceitos, os quais são rastreáveis até os conceitos de
guattari, para entender as mais recentes
mudanças que o Capital engendrou.
A
perspectiva desses novos conceitos se estabelece a partir de dois eixos
interrelacináveis; o da “virtualização” e o da “crise”:
A
valorização da esfera cognitiva da produção criou uma fragmentação da economia;
e em razão disso, uma série de paradoxos:
“
Na esfera sólida da economia, quando usamos um produto, estamos tornando
impossível o uso do material por parte de algum outro.
Quando
usamos um produto do trabalho info-produtivo, quanto mais pessoas usam uma
certa informação mais valor essa adquire.”[25]
Essa geração de renda e principalmente o poder de
propriedade sob esses aspectos imateriais informativos. Vão criar uma série de
bizarrices; a exemplo disso, temos as empresas de bio-técnica que promovem uma
pirateação dos genomas: patenteando o genoma de vegetais e animais.
Ao
passo que a crise cultural e subjetiva dessa nova sociedade ainda vigora e
prolifera; a rapidez com que as subjetividades e os corpos são arremessados
nesse sistema info-produtivo, não permite com que estes se adaptem criando
infelicidade, sofrimento e frustração em série. Bifo fala sobre isso: “A participação no
circuito comunicativo planetário produz uma rápida e desesperada expectativa de
consumo, que não caminha pari passu
com um aumento da renda e da possibilidade de obter efetivamente o que a
publicidade promete” [26].
É como aquele vilarejo africano mostrado na televisão,
onde boa parte da população sofria com a AIDS sem ter como comprar remédios, ou
mesmo mal se alimentavam e no entanto, muitos possuíam aparelhos de celular,
apesar de não haver nem ao menos o sinal de uma operadora naquela região. A TV
coincidia um valor de status social para aquele objeto que independia até de
sua função.
“Bifo”, já vem sinalizando
a crise estrutural de nosso sistema econômico financeiro atual, que agora
desponta nos tele-jornais a algum tempo, o que ele coloca nos termos de crise
da new economy. Ele não é muito otimista, para ele a
precipitação desse colapso, se dará em guerra e militarização da economia. No
entanto a alternativa da “produção” colocada por Guattari, ainda desponta em
sua teoria:
“Trata-se de imaginar tudo
aquilo que se tornará produtivo durante e depois de se abrir o abismo, porque,
se não desaparecer a própria humanidade, a rede sobreviverá” [27].
...
#
A
batalha Temporal e a Demiúrgica social.
O capitalismo e a
alienação do trabalho pelo capital, sempre se tratou de uma questão de tempo,
de apropriação, capitalização do tempo humano, mas é quando o capitalismo passa
a instaurar um mesmo tempo, homogêneo e simultâneo a todos os domínios da vida.
Que a questão do tempo ressurge como nosso último refugio e o nosso principal
campo de batalha.
A teoria de Guattari
aponta, que estamos sujeitos ao capital e sua ação semiotizante
desterritorializadora a todos os momentos, no entanto é dentro do tempo,
criando bolsões de fuga no tempo e do tempo, criando seus próprios tempos, mas
também manipulando o tempo ambiental coletivo vigente, que conseguiríamos
escapar da ação de submetimento a que somos infringidos: performances temporais.
Essas são as aberturas
pragmáticas que a teoria guattari nos apontam, muito além dos conceitos complexos
e difíceis; existe uma prática ontológica produtiva que nos remete ao infinito
e o caos. E nos reconecta com a imanência.
Assim, é de certa forma,
enloquecendo-se que vamos conseguir criar as possibilidades de resistência e de
fuga: no encontro com o olhar, de um esquizofrênico, instaura-se sempre, uma
outra aura, um outro ar, adentramos em uma atmosfera muito mais densa, onde
tudo sempre tem algo a sinalizar, cada gesto é acolhido numa sincronicidade da
fala, mesmo que o conteúdo desta seja o delírio; não é só a mente que delira,
mas também deliram-se corpos. Deliram-se as economias, as burocracias, as
repartições, deliram-se as gravatas.
É fazendo vir à tona o
reconhecimento do servilismo ontológico que grande parcela da população
encontra-se inserida que se pode ter alguma chance. E isso só será possível a
partir de uma política das conjurações, da espreita, é o Xamanismo político dos
engendramentos de situações que instauram um novo tempo: social, coletivo,
singular.
Como
fazer uma cidade parar?
É necessário para isso,
uma espreita demiúrgica, da cidade, de sua psico-geografia, de seu urbanismo
afetivo, de seus corpos em sua espacialidade. Encontra neles os pontos de
fissura e proliferação. Achar os “locais de poder” de uma cidade mover o seu
ponto de aglutinação, para usar uma linguagem feiticeira do nagualismo de Don
juan nos livros de Carlos Castañeda.
O 11 de setembro, foi um
acontecimento conjurado que instaurou um novo tempo no mundo para isso, eles
tiveram que fazer o mundo parar.
A pausa, o repouso, o
cessamento de um fluxo, o fim da cegueira da rotina: são os momentos, livres e potentes,
a abertura da máquina nômade que para e pode assim finalmente ver a aonde
chegamos; que a demiurgica social ira usar. Não irá acontecer uma mudança coletiva em
larga escala das axiomáticas semióticas sem esses momentos “limites” quem devem
ser trabalhados no sentido do despertar. Somente eles poderão nos retirar do
frenesi do delírio consumista.
É somente parando que se inicia uma nova
caminhada.
E é citando o feiticeiro
Don Juan, que acreditamos encontrar a melhor maneira de concluir e de
homenagear Félix Guattari. Em determinado ponto do livro “Tales of Power” que estranhamente foi traduzido por: “portas para o
infinito” se passa o seguinte diálogo:
“ Eu disse a Don Juan que
sua explicação não satisfazia meus sentidos, embora eu estivesse em pleno
acordo intelectual com ela.
_ Eis o defeito das
palavras_ disse ele, num tom tranqüilizador. _ Sempre nos obrigam a sentir-nos
esclarecidos, mas, quando nos viramos para enfrentar o mundo, elas sempre nos
falham e terminamos enfrentando o mundo como sempre o fizemos, sem
esclarecimento. Por este motivo, o feiticeiro procura agir em vez de falar e
para isso ele consegue uma nova descrição do mundo: uma nova descrição em que
falar não é assim tão importante, e em que novos atos tem novos reflexos.”[28]
Talvez essa seja a
potência “mágica” dos conceitos de Guattari; eles não nos obrigam a nos
sentirmos esclarecidos, mas nos ajudam a enfrentar o Mundo.
Bibliografia:
DELEUZE,
G.; GUATTARI, F. O anti-Édipo. Trad. Georges Lamazière. São Paulo: Imago, 1976.
DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil platôs. Vol. 1. Trad.
Aurélio Guerra Neto e Célia Pinto Costa. São Paulo: Editora 34,
2000.
DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil Platôs. Vol. 2. Trad. Ana
Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão. Rio de Janeiro: Editora 34, 2002.
DELEUZE,
G.; GUATTARI, F. Mil Platôs. Vol.
3. Trad. Aurélio Guerra Neto, Ana Lúcia de Oliveira, Lúcia Cláudia Leão e
Suely Rolnik. Rio de Janeiro: Editora 34, 2001.
DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil Platôs. Vol. 4. Trad. Suely Rolnik. Rio de Janeiro: Editora 34, 2002.
DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil Platôs. Vol. 5. Trad. Peter Pál Pelbart e Janice Caiafa. São Paulo:
Editora 34, 2002.
DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O que é a filosofia? Trad.
Bento Prado
Jr. e Alberto Alonso Muñoz. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.
GUATTARI, F. As três ecologias. Trad.
Maria Cristina F. Bittencourt Campinas:
Papirus, 1990.
GUATTARI, F. Revolução Molecular: pulsações políticas do desejo.
Trad. Suely Belinha Rolnik. São Paulo: Editora Brasiliense s.a. 1981
GUATTARI, F. Caosmose: Um novo paradigma estético. Trad. Ana
Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.
PELBART, P. A Nau do Tempo Rei: sete ensaios sobre o tempo da
loucura. Imago, 1993, RJ.
BIFO, Franco Berardi. A fábrica da infelicidade: trabalho
cognitivo e crise da new economy. Trad.
Orlando dos Reis: Rio de Janeiro DP&A, 2005.
Castañeda, Carlos. Portas para o infinito. Título original:
“Tales of Power”. Trad. Luiza Machado da Costa: Rio de Janeiro: Nova Era, 1974
Papirus, 1990. pág. 3.
[3] GUATTARI, F.
Caosmose: Um novo paradigma estético. Trad. Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia
Cláudia Leão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992. Pág. 15
[4] DELEUZE,
G.; GUATTARI, F. O anti-Édipo. Trad.
Georges Lamazière. São Paulo: Imago, 1976.
[6] DELEUZE, G.; GUATTARI,
F. Mil platôs. Vol. 1. Trad. Aurélio Guerra Neto e Célia Pinto Costa.
São Paulo: Editora 34, 2000. Pág. 7.
[7] DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O que é a filosofia? Trad.
Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. Rio de Janeiro: Editora 34,
1992. Pág 113.
[8] DELEUZE, G.;
GUATTARI, F. Mil platôs. Vol. 1. Trad. Aurélio Guerra Neto e Célia Pinto
Costa. São Paulo: Editora 34, 2000. p. 52.
[9] Idem. Pág. 267.
[10] DELEUZE,
G.; GUATTARI, F. Mil platôs. Vol. 1. Trad. Aurélio Guerra Neto e Célia
Pinto Costa. São Paulo: Editora 34, 2000. Pág 37.
[11] Apenas alguns dos povos indígenas que
habitam o Brasil.
[12] Guattari, Félix. Revolução Molecular,
pulsações políticas do desejo. Ed. Brasiliense, São Paulo, 1993. Pág. 211.
[13] GUATTARI, F. As três
ecologias. Trad. Maria Cristina F. Bittencourt Campinas:
Papirus, 1990.. P.16.
[14] GUATTARI, F.
Caosmose: Um novo paradigma estético. Trad. Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia
Cláudia Leão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992. Pág. 169.
[15] GUATTARI, F. Revolução Molecular: pulsações políticas do
desejo. Trad. Suely Belinha Rolnik. São Paulo: Editora Brasiliense s.a. 1981
Pág. 214.
[16] GUATTARI, F. Revolução Molecular: pulsações
políticas do desejo. Trad. Suely Belinha Rolnik. São Paulo: Editora Brasiliense
s.a. 1981 Pág. 215.
[17] GUATTARI, F. As três
ecologias. Trad. Maria Cristina F. Bittencourt Campinas:
Papirus, 1990.
Pág.17.
[18] Idem 17. Pág. 18.
[19] GUATTARI, F. Caosmose:
Um novo paradigma estético. Trad. Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão.
Rio de Janeiro: Editora 34, 1992. Pág. 102
[20] PELBART, P. - A Nau do Tempo Rei: sete ensaios
sobre o tempo da loucura. Imago, 1993, RJ. Pág. 121
[21] DELEUZE, G.; GUATTARI,
F. Mil platôs. Vol. 1. Trad. Aurélio Guerra Neto e Célia Pinto Costa.
São Paulo: Editora 34, 2000. Pág. 37.
[22] GUATTARI, F. Caosmose:
Um novo paradigma estético. Trad. Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão.
Rio de Janeiro: Editora 34, 1992. Pág. 163.
[23]
Conhecido centro comercial em Brasília famoso por ser frequentado por muitas
prostitutas durante a noite
[24] PELBART, P. - A Nau do Tempo Rei: sete ensaios
sobre o tempo da loucura. Imago, 1993, RJ. Pág. 122.
[25] BIFO, Franco Berardi. A fábrica da infelicidade: trabalho
cognitivo e crise da new economy. Trad.
Orlando dos Reis: Rio de Janeiro DP&A, 2005. Pág.115.
[26] BIFO, Franco Berardi. A
fábrica da infelicidade: trabalho cognitivo e crise da new economy. Trad. Orlando dos Reis: Rio de Janeiro DP&A, 2005.
Pág.118.
[27] Idem,
Pág. 10.
[28] Castañeda,
Carlos. Portas para o infinito. Título original: “Tales of Power”. Trad. Luiza
Machado da Costa: Rio de Janeiro: Nova Era, 1974. Pág. 29.
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